Jurema, a força de uma cultura brasileira.

Ela parece ser uma velha conhecida, a JUREMA, a linda cabocla filha valente de Tupinambá que sempre esteve no nosso imaginário com a imagem nos terreiros da Umbanda. Mas ao se aprofundar percebemos que a Jurema é um simbolo da resistencia indígena

O Celophane Cultural resgatando as origens indígenas da região Norte e Nordeste com a tradição mágica e religiosa da Jurema Sagrada  até chegar aos cultos afros que foram (como tudo no Brasil) se misturando na Umbanda e Catimbó onde a Cabocla e a árvore Jurema são uma entidade cultural muito forte para nós.

Gravura Cabocla Jurema - fonte: http://www.maze.kinghost.net/

O Culto á arvore sagrada

O culto da Jurema está para a Paraíba, assim como o de Iroko está para a Bahia. Esta arvore tipicamente Nordestina, era venerada pelos índios potiguares e tabajaras, da Paraíba, muitos séculos antes da descoberta Brasil. Em Pernambuco, existe um município cujo nome é Jurema devido a grande quantidade destas árvores que ali se encontra. A jurema, depois de crescida, é uma frondosa árvore que vive mais de 200 anos. Todas as partes dessa árvore são aproveitadas: a raiz, a casca, as folhas e as sementes, utilizadas em banhos de limpeza, infusões, ungüentos, bebidas e para outros fins ritualísticos. Os devotos iniciados nos rituais do culto são chamados de “Juremeiros”.

Foi na cidade de Alhandra, município a poucos quilômetros de João Pessoa, que esse culto, na forma do Catimbó alcançou fama. A Jurema já era cultuada na antiguidade por pelo menos dois grandes grupos indígenas, o dos tupis e o dos cariris também chamados de tapuias. Os tupis se dividiam em tabajaras e potiguares, que eram inimigos entre si. Na época da fundação da Paraíba, os tabajaras formavam um grupo de aproximadamente cinco mil índios. Eles ocupavam o litoral e fundaram as aldeias Alhandra e a de Taquara.

O Vinho da JUrema

Conforme os seguidores, o Ajucá, também chamado “Anjucá”, ou vinho da jurema é o fogo líquido que traz luz e calor ao espírito dos juremeiros durante os rituais da ordem.

Indígenas que habitam o Nordeste brasileiro preparam uma bebida especial, sagrada, utilizada em rituais mágico-religiosos, bebida feita com partes da planta, acrescida de outros elementos de origem vegetal. Tal bebida favorece a obtenção do transe místico durante rituais que no século XVII é XVIII eram chamados “adjunto de jurema” (uma dança coletiva Tupi, segundo Luís da Câmara Cascudo, no livro Meleagro).

O Catimbó-Jurema

Religião híbrida nascida do cruzamento de crenças e cultos indígenas, com religiosidades africanas e européias – também faz uso de bebida sagrada chamada “Jurema”, entretanto, o modo de preparar essa bebida varia, tanto de tribo para tribo, quanto entre as casas de Catimbó-Jurema.

Cerimônia do catimbó fotografada pela Missão de Pesquisas Folclóricas conduzida por Mário de Andrade em 1938.

Catimbo Abre caminho por JUlio de Paula

Caximbo, maracá, água benta e terço na mão. Tira-mandinga, despacho, abre-caminho, jurema, benzeção, cura. O mestre da mesa e o mestre invisível.

Catimbó é o nome genérico para práticas religiosas que incluem elementos da pajelança indígena, do catolicismo, da antiga feitiçaria europeia, do espiritismo.

O protocolo catimbozeiro é democrático e o canto ritual é o fio condutor das cerimônias. Mário de Andrade teve o corpo fechado no Catimbó de Dona Plastina, em Natal, na última sexta-feira do ano de 1928. Na ocasião, recolheu material musical que entrou pra história.

Nesta audição, o catimbó abre caminho para outras encantarias e tradições religiosas (e musicais) mixadas pela sabedoria popular e (re)mixadas por Renata Rosa, A Barca, Siba, Mestre Ambrósio, Jaraguá-Mulungu, entre outros. Santos e Mestres que fazem e desfazem.

Logo após sua cerimônia no catimbó de Dona Plastina, Mário de Andrade anota em seus diários:

“Não escorreguei no areão, não quebrei a perna, nenhum cachorro latiu para mim, nenhum cangaceiro existia em Natal, porque o meu corpo, pela força musical dos deuses estava fechado pra sempre contra as injúrias dos ares, da terra, de debaixo da terra e das águas do mar. Preço: 30 mil réis.”

Catimbó!
Candomblé de Caboclo

É todo candomblé que além do culto aos Orixás, Voduns ou Nkisis, cultua também espíritos ameríndios chamados de entidades, catiços ou caboclos boiadeiros, gentileiros. Inicialmente na Bahia os Candomblés não tradicionais, eram na maioria caboclos, que é um misto de Keto, Jeje e Angola.

O caboclo exerce um papel fundamental no relacionamento da comunidade afro brasileira, pois fala o idioma português, papel que os orixás só fazem no idioma africano, chamado Yoruba, assim conquistando a popularidade dos crentes, que não entendem ou fala a língua dos orixás. São encarregados de trazer mensagens dos seus ancestrais, principalmente de entes queridos desencarnados há pouco tempo, aconselha os desesperados, indicando sempre um novo caminho, indica banhos de folha sagrada e pequenas oferendas para resoluções dos seus problemas.

Comida arriada para o Caboclo - fonte Wikipédia

A Lenda – por Frank Oliveira

O sol girou mais uma vez ao redor da Terra e quando os raios da manhã tocaram a sua testa, a cabocla gritou:

– Sou Juremaaaaaaa!!!

E pulou do galho mais alto da árvore gigante e pareceu voar por entre os passaros e outros seres alados da floresta; mergulhando no rio profundo, de onde emergiu, nadando com os botos que entendiam o seu canto.

A Cabocla, foi encontrada aos pés do arbusto da planta encantada que lhe deu o nome, e cresceu forte, bonita, com a formosura da noite e a firmeza do dia. Corajosa, a cabocla tornou-se a primeira guerreira mulher da tribo, pois a sua força e agilidade no manejo das armas e na ciência da mata, se tornara uma lenda por todo o continente; onde contadores de estórias, aos pés da fogueira, falavam da india da pena dourada, que era a própria Mãe Divina encarnada.

Nada causava medo na cabocla, até o dia em que ela encontrou o seu maior adversário: o amor. Jurema se apaixonou por um caboclo chamado Huascar, de uma tribo inimiga chamada Filhos do Sol, e que fora preso numa batalha.

Os dias se passaram e o amor aumentava, pois o pior de amar não é amar sozinho e sim ser amado em retorno, pois exige do amado, uma ação em prol do amor.

Jurema que aprendera a resistir ao canto do boto, ao veneno da cascavel e da armadeira, já resistira bravamente a centenas de emboscadas e que sentia o cheiro à distância de ciladas, não conseguiu resistir ao amor que fluia do seu peito por aquele guerreiro. Observando o caboclo preso, ela viu nos olhos dele, as mil vidas que eles passaram juntos, viu seus filhos, o amor que os unia além da carne e percebeu que não foi por acaso, que eleque ele fora o unico caboclo capturado vivo, e decidiu liberta-lo mesmo sabendo que seria expulsa da tribo.

Na fuga, seu próprio povo a perseguiu, e em meio a chuva de flechas voando na direção do caboclo fugitivo, foi jurema que caiu salvando seu amado  recebendo a ponta da morte que era para ele, no seu proprio peito.

A Resistência indígena representada pela planta

Quando os portugueses chegaram em 1500 para “invadir” o Brasil, a resistência dos povos indígenas no Nordeste, não permitiu que a Jurema, enquanto árvore sagrada, fosse conhecida, em seus usos e signicados, não sendo assim documentada pelos colonizadores e estrangeiros.

Numa segunda fase histórica a Jurema representa um elemento ritual ligado à própria resistência armada dos povos indígenas ou à guerra empreendida contra inimigos inclusive em suas alianças.

Ainda nesta fase na qual a Jurema começa a ser documentada, seu significado ainda não é entendido mas seu uso já é motivo de repressão, prisão e morte de índios. Na medida em que avança o rolo compressor da colonização, processo de genocídio ou tentativa de dominação, não só política e econômica como também cultural, aparece uma nova forma de resistência: a Jurema assume um lugar central na religiosidade popular, não só indígena regional – Catimbó.

Diante do componente negro a Jurema garante seu reconhecimento, como entidade (espírito, divindade, cabocla) autóctone, “dona da terra”. A Jurema é absorvida pelos cultos afro-brasileiros, tendo surgido inclusive os “Candomblés de Caboclos”.

Nas últimas décadas é no contexto da Umbanda, religião nascente e em pleno processo de sistematização e de expansão nacional, que a Jurema é integrada na cosmologia sagrada, no panteão da religão nacional. Constatamos em vários estados nordestinos as “Linhas da Jurema”, dentre as linhagens e filiações religiosas da Umbanda.

Nestas últimas décadas, e paralelo ao movimento religioso, propriamente brasileiro, a Jurema continua como “núcleo duro”, segredo, bandeira ou símbolo, para os remanescentes indígenas, em pleno “movimento étnico”, num contexto de defesa de seus direitos humanos, de suas áreas de reservas e de sua autonomia e reconhecimento no pluralismo da sociedade e das culturas brasileiras.

Da pré-história à história

Se bem que dispomos de fontes documentais sobre esta planta, já do século XVI (3), Câmara Cascudo(4) refere-se a um primeiro registro oficial – registro de óbito do índio Antônio, da cidade de Natal (RGN), de 2/6/1758 : “Sabia-se que este estava preso por razões do sumário que se fez contra os índios de Mopibu, os quais fizeram adjunto de jurema, que se diz supersticioso”.

Ainda do século XVII e XVIII, registros disponíveis dão conta que a Jurema, enquanto vinho alucinógeno, foi também usada na região amazônica. Além de movimentos migratórios, como o movimento messiânico de época cabralina dos guaranis em busca da terra sem mal – Lima apela também para o envio de índios juremeiros do Nordeste para combaterem os invasores franceses no Maranhão, como hipótese explicativa da expansão deste uso sagrado da Jurema, para além do Nordeste.

Constatamos por um lado que o uso primordial e cerimonial da Jurema sagrada passou desapercebido ou não pode ser observado e descrito por colonialistas viajantes, naturalistas e outros estudiosos nestas terras, numa primeira fase considerada diabólica, “mágica” ou bruxaria pelos colonizadores católicos ou mesmo pelos inquisidores, tudo o que fizesse parte do sistema médico-religioso autóctone, parece entretanto que a Jurema foi tolerada e aceita, quando canalizada pela lógica da guerra de portugueses contra franceses, no Brasil colonial.

A Jurema na Literatura

Na literatura o suco da jurema aparece no Romance/poema  Iracema de José de Alencar. É descrito como bebida de cor esverdeada, que deixavam os índios em estado de transe, propiciando-lhes sonhos agradáveis. Iracema era filha do pajé, guardiã do suco da jurema. Por isso deveria manter-se virgem, mas sua vida muda com a chegada de Martim, um homem branco, que chegara como convidado à sua casa.

Iracema - 1884 - de Jose Maria de Medeiros - Inspirado no romanec-poema de Jose de Alencar

O romance ocorre no interior e litoral nordestino (terra do autor) e explora a rivalidade tribal entre os índios tabajaras (da tribo de Iracema) e os pitiguaras (referência aos potiguaras do qual ainda existem remanescentes), que disputavam territórios litoral e adversários dos tabajaras.

O autor apesar de descrever alguns costumes indígenas, ameniza a violência do processo de aculturação descrito além de Iracema nos seus outros romaces indianistas “Ubirajara” (1870), e “O Guarani” (1857) e não fornece um relato comparável as descrições etnográficas. Contudo, diante da escassez de fontes sobre os índios do nordeste do Brasil, é uma importante referência para reconstituição dos rituais e mitos destruídos pela aculturação juntamente com seu romance regionalista “O Sertanejo” (1875).

A Jurema de Mauricio de Souza

A Jurema é uma criança indígena do Brasil, nas histórias em quadrinhos da Turma do Papa-Capim, criadas pelo desenhista Mauricio de Sousa.

Jurema representa a figura feminina dos curumins, que é como se chamam as crianças índias. Apesar de ser ainda bastante pequena para namorar, tem com Papa-Capim uma afinidade especial, em muitas histórias demonstrando mesmo sentir ciúmes dele. Muitas vezes a menina manda o Papa-Capim ir atrás da caça e pesca (que afinal é a principal atividade indígena), para ela comprovar que Papa-Capim, não seja medroso, e sim valente.

Turma do Papa Capim onde aparece a indiazinha JUrema - Maurício de Souza

Fontes:

Jurema : da festa à guerra, de ontem e de hoje –  José Maria Tavares de Andrade 

Wikipedia

Catimbo abre caminho

A Lenda da JUrema – Frank Oliveira – Recanto das letras

ESta matéria é em homenagem á amiga Monica, devota e pesquisadora de Jurema.

Ela deixou o mundo dos Mortais e está nos olhando ao lado da Cabocla guerreira.

Pra voce com carinho

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4 Respostas para “Jurema, a força de uma cultura brasileira.

  1. Lindo!
    Essa é uma das melhores matérias suas que ja li aqui, uma mistura de cultura, espiritualidade e ciência, tudo que envolve a Jurema.
    Salve a Jurema!
    E a homenagem a nossa sempre querida, a nossa sempre amiga Monica, que nos presentou em compartilhar sua presença nesse plano e nos iluminou com seu amor e carinho sem igual! Pra sempre no meu coração!!
    Beijos!!

  2. Pingback: A Cozinha Brasileira um suculento caldeirão cultural « Celophane Cultural·

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