A “Festa Santa” é matéria da Raiz 11

A Um tempo atrás conheci uma revista que falava de uma forma muito “saborosa” sobre o assunto que mais me dá prazer nesta vida “Cultura Popular” com artigos das verdadeiras feras no assunto.

A convite do Edgard Steffen Junior editor chefe da Revista Raiz tive o prazer de me juntar a estas feras e fazer uma matéria pra edição da Raiz 11

Aqui a matéria na Integra celebrando com vocês este momento tão importante pra mim:

Festa Santa

O povo brasileiro é um povo que tem fé, ele se apropria, se adapta, se transforma, transcende e pronto. Um povo misturado que colocou no mesmo caldeirão as procissões católicas dos europeus, as festas de matriz africanas e a fé em santos não-canônicos. Estes movimentos populares, religiosos ou não, estão espalhados por todo o Brasil.

Foto: Marcelo Feitosa

Mas é no Nordeste que esta fé se revela com mais força como por exemplo os seguidores de Antonio Conselheiro em Canudos e o fenômeno Padre Cícero em Juazeiro.

Um fantástico e ferrenho imaginário de devoção e um relacionamento íntimo, corpo, suor, lágrimas e sangue com o sagrado. As regras são criadas, as formas de expressão são únicas, mas a fé é única e inabalável.

Foto: Marcelo Feitosa

O Fotógrafo, Carioca de nascença e Pernambucano de coração, Marcelo Feitosa,  lançou-se em duas romarias de regiões distintas do Nordeste  – Juazeiro do Norte, sertão do ceará, terra sagrada do líder político/religioso Padre Cícero e o Morro da Conceição, uma procissão da “bandeira” no meio da região metropolitana de Recife. Seu objetivo era conhecer de perto, juntinho enfronhado estas manifestações, trazendo pra nós um retrato, por vezes crítico e profano desta força que move essa gente, desta fé cega e impressionantemente verdadeira expressada nos olhos , mãos e símbolos carregados por estes devotos.

foto: Marcelo Feitosa

A curadora da exposição Andrea Vizzotto destaca: “Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes, em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.”

A “Festa Santa” de Feitosa fez parte da exposição do MAP “Caminhos do santo”, em 2010, no Recife. Segundo Marcela Wanderlei curadora e coordenadora do MAP “…a mostra compôs um mapa sobre a temática no nordeste, evidenciando particularidades e expressando diálogos na representação de um universo religioso (re)elaborado.”

foto Marcelo Feitosa

No meio desta “Festa Santa” o fotógrafo nos empresta seu olhar crítico destacando outras manifestações de fé contemporânea onde Xuxa e Michael Jackson desfilam lado a lado com Cícero e Conceição. A Curadora reflete em seu texto de apresentação: “Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?”

Foto: Marcelo Feitosa

A Festa em Madureira:

Agora é a vez de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, receber esta procissão de fotos, participar desta “Festa Santa”. Os moradores da terra do Samba são pessoas que, de imediato, vão se identificar com o tema. O subúrbio carioca tem como grande parte da população imigrantes nordestinos, desta forma, a identificação destas manifestações típicas das suas regiões, do seu povo, elevam sua identidade a patrimônio cultural da humanidade.

Foto: Marcelo Feitosa

Festas como a de Nossa Senhora da Penha, Iemanjá, São Sebastião e São Jorge, mesmo vindas de tradições europeias misturadas ás tradições dos povos afrodescendentes, mostram esta aproximação, este “(re)conhecimento” de uma fé que não é só do homem do Nordeste e sim das “gentes” brasileiras.

Foto: Marcelo Feitosa

Com a palavra a Curadora:

Procissões e romarias estão entre as mais antigas tradições do Brasil, heranças da nossa colonização portuguesa. Contudo,
o ritual católico encontrou vários obstáculos para se fazer presente em todas as regiões, dificultando sua missão evangelizadora
e criando as condições para que outras práticas populares fossem a ele incorporadas, o que resultou em uma religiosidade
multifacetada. O mesmo espaço de reza e de devoção podia ser também o da festa e o do jogo, pois eram formas não
excludentes de mostrar reconhecimento e agradecimento ao santo de devoção.

As fotos que vemos na exposição Festa Santa não são apenas uma afirmação da fé dos romeiros. Ao se lançar em duas romarias
de regiões distintas do Nordeste brasileiro – Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, e Morro da Conceição, na região metropolitana
de Recife –, o fotógrafo Marcelo Feitosa tinha como objetivo conhecer as manifestações culturais presentes nesses espaços, para
além do estrito caráter devocional. O resultado disso é uma coletânea de imagens que mostram o sagrado e o profano convivendo
no mesmo espaço sem constrangimentos. Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes,
em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.

Se atualmente desconfiamos da fotografia documental como apenas um registro do real, pois se trata também de uma construção,
o olhar aparentemente herético do fotógrafo constitui-se em um excelente convite à reflexão sobre como é vista e pensada a fé no
mundo contemporâneo. Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar
a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?

Andrea Vizzotto
Curadora

“Festa Santa” – Fotografias de Marcelo Feitosa

Curadoria – Andrea Vizzotto

SESC Madureira – Março e abril 2012

www.sescrio.org.br

Curriculo:

Marcelo Feitosa nasceu no Rio de Janeiro (RJ), onde vive atualmente após um período morando em Recife (PE). Começou a fotografar ainda jovem, nos anos 1980. Fotógrafo independente, trabalha com jornalismo e é repórter fotográfico associado à FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). A partir de 2007 passou a trabalhar exclusivamente com fotografia digital, tornando-se especialista em pós-produção e tratamento digital de imagens. Nesse mesmo ano começou a desenvolver vários projetos autorais, sempre utilizando a fotografia como forma de expressão. Seus trabalhos começaram a se destacar a partir de 2008, sendo premiado em vários concursos. Entre os prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio SENAD de fotografia 2009, em Brasília, e o IV Prêmio Pernambuco Nação Cultural 2010. Participou de todas as edições da Mostra Recife de Fotografia e também de outras mostras de arte, tais como a I Mostra de Videoarte do Memorial Chico Science, dentro da programação do SPA das Artes 2009, e a Semana de Artes Visuais do SESC Santa Rita (Recife). Ainda em 2009, participou da exposição “Caminhos do Santo”, realizada pelo Museu de Arte Popular da cidade do Recife (MAP), em 2010, participou da exposição “Além da Imaginação”, realizada pelo Centro Europeu de Curitiba (PR), em 2011 foi finalista do concurso internacional Prix Photo Web, promovido pela Aliança Francesa e em 2012 realiza sua primeira exposição individual, no SESC Madureira – RJ, com o projeto Festa Santa. Possui imagens no acervo dos Museus Oscar Niemayer (MON), em Curitiba, e na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE). Atualmente trabalha na cobertura jornalística de eventos para diversas agências de notícia e é professor da escola de fotografia Beco Limon Fotografia.

Na REvista Raiz 11

A Matéria chama “Festa Santa” é logo a primeira matéria da coluna Acontece.
A revista Raiz 11 pode ser comprada pelo site ou em breve na Livraria Cultura da sua cidade.
Revista Raiz 11

Confira e compartilhe comigo este prêmio.

São Jorge do Brasil

O Celophane Cultural em 23 de Abril vem homenagear  São Jorge, o santo guerreiro, que ao matar  o dragão da maldade e salvar a humanidade do mal, não tinha idéia de como ficaria famoso e teria uma legião de fiéis no mundo inteiro.

Mas “o brasileiro”, também guerreiro, com a fé em Jorge, mata um dragão por dia. Por isso podemos afirmar que São Jorge é do Brasil.


Festa de São Jorge em Vespasiano, MG. A guarda de Marinheiro de São Jorge recebe os convidados. 25/04/2010. FOTO ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA

Porque São Jorge é Tão Brasileiro?

Ele é a síntese da fé cultuada dentro das religiões através dos séculos, tão depurado que deixa o manto e se torna ícone de força e coragem.

O culto ao santo é, no Brasil, uma das mais arraigadas heranças portuguesas e uma enorme festa contemporânea profana e religiosa, laços de fé que unem Brasil e Portugal, o sincretismo religioso, a cultura popular e em especial a identificação cultural dos brasileiros com São Jorge.

Procissão de São Jorge - Rio - Foto ntegrante da exposição: "As MUitas faces de Jorge" _ galeria Mestre Vitalino - Museu do Folclore - Foto: Fábio Caffe

A identificação popular é notável,  o Santo é venerado desde os tempos da colônia, São Jorge está presente nos altares das Igrejas católicas e ortodoxas e nos gongás da umbanda, nos botequins e fachadas de casas, é patrono de time de futebol, está presente nas artes plásticas, na poesia e na música popular. A imagem em que o santo enfrenta um dragão repousa estática entre garrafas de bebida nos bares cariocas e nos nichos domésticos; desfila em decalque na carroceria dos ônibus bordados nas capas dos assentos de seus motoristas; gravada em medalha de prata, ouro ou no reluzente chapeado, pende do pescoço do playboy e do operário, do patrão e do empregado.

A grande festa no Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, a devoção a São Jorge desafia as barreiras etárias, sociais e zomba dos limites geográficos. Aproxima o velho do moço, as classes média e baixa dos célebres emergentes, a zona sul do subúrbio, o morro do asfalto, o lar do botequim.

Procissão de São Jorge - Rio - Foto ntegrante da exposição: "As MUitas faces de Jorge" _ galeria Mestre Vitalino - Museu do Folclore RJ - Foto: Ingrid Cristina

É exemplo perfeito da religiosidade popular brasileira tal como a descreveu Gilberto Freyre: uma “religiosidade afetivizada”, que canibaliza as hierarquias impostas entre o sagrado e o profano e transforma a festa para o santo às portas da igreja, na Rua da Alfândega, em uma festa carnavalesca.

Imagem de São Jorge - Igreja na Rua da Alfândega RJ - Foto: Jefferson Duarte

A dimensão que o culto a São Jorge assumiu no Rio de Janeiro contou, é certo, com a força das religiões afro-brasileiras. Sabe-se há muito que os escravos encontraram no culto aos santos um abrigo seguro para a manutenção do culto às entidades do panteão iorubá, quando a prática era assunto de polícia. A função medianeira, as habilidades e o conhecimento no trato sobre certa matéria aproximaram os santos e os orixás. Enquanto os atributos dos santos indicavam o exercício de seu antigo ofício, a aptidão para cura de uma doença ou a resolução de um problema, os símbolos dos orixás revelavam, do mesmo modo, suas propriedades curativas e materiais. Nos terreiros do Rio, São Jorge emprestou sua face a Ogum, na Bahia a Oxossi.

O encontro de São Jorge com os deuses africanos é um dos muitos capítulos que compõem a história da devoção ao mártir no Ocidente. São Jorge dialogou com outros mitos desde a Antiguidade até assumir a feição lusitana que os colonizadores trouxeram ao Brasil. Ao contrário de outros santos do catolicismo, São Jorge conta com mais de um relato hagiográfico, sua canonização literária.

Mas como o venerado Guerreiro ganhou tanta força que a fé em chega aos dias de hoje?

AS LENDAS

A Legenda Áurea – o Mártir

São Jorge nasceu na Capadócia no ano de 280. Logo no final do século III, ele trocou a Capadócia pela Palestina e ingressou no exército de Diocleciano. O cristão chegou rapidamente aos postos de conde e depois de tribuno militar. As complicações para São Jorge iniciaram quando os cristãos voltaram a ser perseguidos. Coerente, São Jorge manteve sua fé e passou a lutar a favor dos cristãos, superando cada tortura a que foi condenado por Diocleciano e convertendo mais e mais soldados ao reino dos céus.

“Breviário Livro de Horas” de 1378” que tem São Jorge em seu martírio e guarda lições de fé coragem e determinação que inspiraram seus fieis.

O imperador Diocleciano, contrariado com a resistência dos cristãos encabeçada pelo guerreiro, chamou um mago para acabar com a força de Jorge. O santo tomou duas poções e, mesmo assim, manteve-se firme e vivo. O feiticeiro juntou-se à lista dos convertidos. Durante seu martírio, Jorge mostrou-se tão inflexível que a própria mulher do imperador Diocleciano também converteu-se ao cristianismo. Esta teria sido a última gota, que fez com que Diocleciano mandasse degolar o ex-soldado em 23 de abril de 303. A data ficou marcada como Dia de São Jorge.

A Lenda do Catolicismo Popular o Dragão

A lenda mais conhecida onde São Jorge contra Dragão da Maldade.

reprodução do mais famoso "Santinho" de São Jorge - imagem popular autoria desconhecida

A Arte Cristã representa São Jorge montado num cavalo, combatendo o dragão de Selena na Líbia, salvando a vida de uma princesa. A Igreja cita que essa representação é alegórica, pois o dragão vencido pelo santo, representa o espírito mau. A princesa simboliza a esposa do imperador que presenciando a constância do mártir, se converteu ao cristianismo.
Dizem que o cavalo branco de São Jorge é abençoado por Deus. 


Reprodução do Quadro de Raphael (1483 – 1520)– “St. George and the Gragon” – 1506 - Da National Gallery of Art – Washington DC.

Os restos mortais de São Jorge foram transportados para Lídia (antiga Dióspolis), onde foi sepultado, e onde o imperador cristão Constantino mandou erguer suntuoso oratório aberto aos fiéis. Seu culto espalhou-se imediatamente por todo o Oriente (Constantinopla, Egito, Armênia, Grécia, Império Bizantino).

Reprodução de fotografia da escultura em madeira de São Jorge datada de 1489 da Catedral gótica de Estocolmo – Storkyrkan – autoria de Bernt Notke de lübeck

"a espada e o Dragão" gravura e Samico - Brasil - 2000

São Jorge na cultura Portuguesa

Devoção Portuguesa – São Jorge Defensor do Império

O Culto dos reis de Protugal ao megalomártir tem início com a fundação do Reino de Lisboa Por Afonso Henriques – 1° Monarca de Lisboa.
Durante a Dinastia de Avis (século XIV ao séc. XVI) a fé em São Jorge passou a representar a vocação de Portugal para a conquista.
Como mais um sinal de devoção, o Infante d. Henrique deu o nome do santo a uma das ilhas do arquipélago dos Açores.
Posteriormente o Santo foi tomado como intercessor celeste pela disputa da coroa Lusitana contra Castela quando
D. João I entrega a batalha a São Jorge gritando:

“Avante São Jorge, avante, que eu sou Rei de Portugal”
São Jorge Atravessa o Atlântico

“Que culpa tem ele de ser tão belo e ecumênico” – Mário Quintana

A procissão bahiana

A Primeira procissão do Corpo de Deus  foi realizada na Bahia em 1549 trazendo o “Santo mártir” à moda de Lisboa o santo saía na procissão baiana sobre cavalo ricamente adornado, escoltado por seu págem, por seu alferes, o popular “Homem de ferro”, e por cavalariços vistosamente trajados.

Após o descobrimento do Brasil, a imagem do santo sobre o cavalo passou a ser um dos principais atrativos do desfile.

A procissão Mineira

Em Vila Rica (hoje Ouro Preto, MG) no século XVIII, também não se economizava em pompa. Na véspera da procissão, à noite, os Criados de São Jorge, vestidos de capa e calção vermelhos, rufando tambores, anunciavam pelas ruas o cortejo. Ao Amanhecer, ao som da banda e ao estouro dos fogos, o povo ganhava as ladeiras da cidade.Antes da missa, na matriz de Nossa senhora do Pilar, a imagem de São Jorge sobre um cavalo, seguida por seu alferes em ricos trajes romanos, e por um anjinho, dirigia-se à igreja. A Imagem de São Jorge esculpida por Aleijadinho, saía escoltada por quatro estribeiros vestidos como pagens  e um piquete de cavalaria com cascos dourados e arreios enfeitados.
O Santo era recolhido no Paço da Câmara.

Escultura em cedro - Aleijadinho – Museu da Inconfidência – Ouro Preto – MG - detalhe da montagem da escultura com capa original na EXposição Brasil 500 anos - Curiosidade sobre a obra: A imagem ficou anos na Prisão por ter caído e matado um soldado durante uma procissão.

A procissão do Rio de Janeiro Capital do Império

No Rio de Janeiro imperial, o desfile de São Jorge provocava tamanho impacto no dia do Santíssimo que se tornara por si só um acontecimento. O mártir era o único santo a integrar o cortejo. Ao repique do sino da igrejinha da rua de São Jorge, atual Gonçalves Ledo, declarava-se iniciada a festa. O foguetório abafava o vozerio e a irmandade do santo, com capa, punha-se a aguardar a chegada do corcel branco. O cortejo liderado pela Irmandade, contava com a banda de escravos da Quinta da Boa VistaA Imagem vinha em cima de um cavalo Branco, com um criado de cada lado, armadura, escudo elmo com ornamentos dourados e capa de veludo carmesim bordada a ouro.

São Jorge na Procissão de Corpus Christi - Aquarela de Debret Sec. XIX - A estátua de São Jorge desfilava enfeitada sobre um cavalo ao lado do "Homem de Ferro". Acervo Museus Castro Maya / IBRAM / MINC

Atrás, o escudeiro sobre um ginete abria o caminho para 24 cavalos das cavalariças da Quinta da Boa Vista.
A Única presença a rivalizar com o santo era o imperador D. Pedro II que desfilava suprindo a demanda dos reis e dos exércitos, ajudando – lhes a forjar uma estampa de glória e conquista.
Pocissão de São Jorge Thomas Ewbank – Revista Jangada Brasil

23 de abril — Aniversário de “São Jorge, Defensor do Império”. Este poderoso guerreiro aparece em público somente uma vez por ano, ocasião em que, armado dos pés à cabeça, com lança na mão e espada, conduz o imperador, a corte, as tropas nacionais, a hierarquia eclesiástica e o povo leigo, pelas ruas, em triunfo. Pensei que fosse dia de desfile, porém este ocorre em junho, e assim somente então é que poderemos prestar nossas homenagens ao herói.

(…)

“No Brasil São Jorge é Ogum”
O sincretismo

A força do Venerado Guerreiro só explodiu no país a partir do sincretismo religioso com os cultos afro-brasileiros.
Os negros nas senzalas cantavam e dançavam em louvor aos orixás, entretanto seus senhores não gostavam, e tentavam converte-los a fé cristã, aqueles que não se convertiam eram cruelmente castigados. Daí nasce o sincretismo, em que os negros africanos associavam os orixás  aos santos católicos.

Obra em Argila da série "Sincréticos" de Elson Santos - MUseu do Homem do Nordeste - Acervo FUNDAJ - PE

No candomblé da Bahia é associado a Oxossi, mas é em Ogum, na umbanda que São Jorge tem a maior representação. São Jorge foi uma das primeiras figuras da Igreja católica a ser incorporada à cultura afro-brasileira.

Altar de Umbanda todo enfeitado de vermelho, cor destinada a S. Jorge e a Ogum na UMbanda - foto: Klaus D. Günther

Simbolicamente Ogum que na mitologia corresponde ao Orixá dos exércitos, dos guerreiros e dos soldados. Orixá do calor, da força e da energia. É o rei do ferro e protetor de todos que venham a trabalhar com instrumentos metálicos.
Na África é festejado como padroeiro da Agricultura.

EScultura africana em madeira representando Ogum aquele que abre os caminhos

Ogum festeja sua data no mesmo dia que São Jorge: 23 de abril. Conforme o Dicionário do Folclore Brasileiro, ele é o orixá do calor, da força e da energia. É o rei do ferro e protetor de todos os que venham a trabalhar com instrumentos metálicos.

OGUM de Carybé umas das 19 peças que fazem parte do Grande Mural dos Orixás representando os deuses d’África no Candomblé da Bahia. As obras pertencem à coleção do Banco do Brasil BBM S/A, em comodato no Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia.

Conhecido e festejado na África como padroeiro da Agricultura. Ogum na Umbanda é, como os espiritualistas chamam, São Jorge Guerreiro.

O Sincretismo entre São Jorge e os orixás africanos e seu vínculo com categorias ligadas às forças militares, aos ofícios que ligam com o ferro e com o fogo, mecânicos, bombeiros e  barbeiros, reforçaram a devoção do santo no Brasil e garantiram sua extrema popularidade até os dias de hoje. Presente no imaginário popular como o representante da fé

Cristo me defenda dos meus inimigos
tenham pernas e não me alcancem
tenham braços e não me maltratem
tenham olhos e não me vejam
tenham boca e não me falem…

Esta oração — que está no livro de Joaquim e Fernando Pires de Lima, Tradições populares de Entre-Douro-Minho (Barcelos, 1938, p.172) — acrescenta, logo a seguir, que aquele que a reza “com as armas de São Jorge (será) armado” — como a invocar, ao mesmo passo que o poder onipotente de Cristo Senhor Nosso — o denodado e valioso concurso de São Jorge, o popular santo guerreiro, o Ogum das macumbas, o valoroso Oxossi dos candomblés baianos…
Com todas estas manifestações espalhadas pelo país, podemos garantir, que São Jorge é, acima de nossa Senhora de Aparecida, o Padroeiro do Brasil.

Num boteco que se preze sempre tem uma estátua de São Jorge, uma vela acesa e um copo de água ou cerveja bebida preferida dos Jorges da vida.

Convite para a abertura da Exposição que homenageou S Jorge no ano de 2011 no MUseu do Folclore. Que exibe o medalhão no pescoço do devoto como simbolo de orgulho e fé.


No Cinema:

O filme “Uma festa para Jorge”, dirigido por Isabel Joffily e Rita Toledo

Isabel Joffily e Rita Toledo – jovens documentaristas que se aventuram pela primeira vez no fazer documental – acompanham a trajetória de três devotos de São Jorge ao longo dos meses de preparação para o 23 de Abril, dia do Santo. Dona Ana luta para organizar as barracas da festa. Seu Jorge precisa manter a ordem na Igreja. Helinho se confronta com os seus orixás. A relação de cada um deles com o evento revela o universo da devoção ao Santo Guerreiro na cidade do Rio de Janeiro. O filme é um DOCTV realizado em 2009.

Ficha Técnica: 52min. 2009
de Isabel Joffily e Rita Toledo

produzido para a série Doc. TV, em 2009

O Venerado guerreiro nas artes plásticas
São Jorge foi retratado diversas vezes por artistas renomados:

SÃO JORGE E O DRAGÃO 1943, pintura mural à têmpera, 244x61 cm Museu Casa de Portinari, Brodowski, SP

O Artista plástico Farnese de Andrade tem diversas peças inspiradas no Glorioso Guerreiro.

NO Imaginário S Jorge sempre é lembrado: Xilogravura de Fernando Vilela: Livro: Ivan filho-de-boi (Mitos Russos) Autora: Marina Tenório / Ilustrador: Fernando Vilela Coleção Mitos do Mundo - Ed. Cosac & Naify

"Os Filhos de Jorge" um animadíssimo Blog "Os Filhos de Jorge!" De uma união improvável surgem estas duas criaturinhas que vão fazer você ficar no mundo da lua! - Por: Cisko Diz

O Fabuloso São Jorge de Raimundo Rodrigues, medindo 3 x 3 x 3 Metros em sucata metálica.

O Menino São Jorge - Raimundo Rodrigues

São Jorge é POP
São diversas as manifestações artísticas e do dia a dia em que São Jorge se faz presente:
algumas imagens destes devotos/artistas:

Dragão de São Jorge esculpido por Rafael nas areias de Copacabana - RJ

São Jorge no Barracão da escola de Samba Império Serrano onde o Santo é padroeiro - foto Jefferson Duarte

Oratórios confeccionados por artesão diversos em exposição no Centro Cultural Carioca - RJ - Foto: Jefferson Duarte

 

Todo ano o Corinthians faz uma grande festa em homenagem ao seu Padroeiro em SP

 

Capa do Disco de Jorge Bem Jor - Devoto declarado do Santo

Fontes:

Georgina Silva dos Santos, professora do Departamento de História da UFF  – Núcleo de História Moderna e Colonial da Época Moderna da mesma universidade. – Ofício e Sangue – A Irmandade de São Jorge e a Inquisição na Lisboa Moderna - compre o livro

Georgina Silva dos Santos. “Venerado guerreiro”. In: Nossa História. ano 1, n. 7. Biblioteca Nacional

Matéria da REvista de História da Biblioteca Nacional – Por Beatriz Catão Cruz SantosSanto Guerreiro

Eduardo Silva. Dom Obá II d’África, o príncipe do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Jacopo Varezze. Legenda Áurea: vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

João da Silva Campos. Procissões tradicionais da Bahia. Salvador: Publicações do Museu da Bahia, 1947.

REvista Jangada Brasil – A procissão de São Jorge

Neves, Guilherme Santos. “Orações de São Jorge Guerreiro”. A Gazeta. Vitória, 28 de abril de 1957

Cine Esquema Novo

Site São Jorge Mártir

Museu Afro Brasileiro: Carybé e o Grande MUral dos Orixás

Blog: “Os Filhos de Jorge” www.osfilhosdejorge.wordpress.com

A Luta por se tornar Patrimônio

Escravo tocando berimbau.
DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824.

Origem

No século XVI, Portugal tinha um dos maiores impérios coloniais da Europa, mas carecia de mão de obra para efetivamente colonizá-lo. Para suprir este déficit, os colonos portugueses, no Brasil, tentaram, no início, capturar e escravizar os povos indígenas, algo que logo se demonstrou impraticável. A solução foi o tráfico de escravos africanos.

A principal atividade econômica colonial do período era o cultivo da cana-de-açúcar. Os colonos portugueses estabeleciam grandes fazendas, cuja mão de obra era primariamente escrava. O escravo, vivendo em condições humilhantes e desumanas, era forçado a trabalhar à exaustão, frequentemente sofrendo castigos e punições físicas. Mesmo sendo em maior número, a falta de armas, a lei vigente, a discordância entre escravos de etnias rivais e o completo desconhecimento da terra em que se encontravam desencorajavam os escravos a rebelar-se.

Neste meio, começou a nascer a capoeira. Mais do que uma técnica de combate, surgiu como uma esperança de liberdade e de sobrevivência, uma ferramenta para que o negro foragido, totalmente desequipado, pudesse sobreviver ao ambiente hostil e enfrentar a caça dos capitães-do-mato, sempre armados e montados a cavalo.

 

Capoeira Carybé

Nos Quilombos

Não tardou para que grupos de escravos fugitivos começassem a estabelecer assentamentos em áreas remotas da colônia, conhecidos como quilombos. Inicialmente assentamentos simples, alguns quilombos evoluíam atraindo mais escravos fugitivos, indígenas ou até mesmo europeus que fugiam da lei ou da repressão religiosa católica, até tornarem-se verdadeiros estados multiétnicos independentes.

A vida nos quilombos oferecia liberdade e a oportunidade do resgate das culturas perdidas à causa da opressão colonial. Neste tipo de comunidade formada por diversas etnias, constantemente ameaçada pelas invasões portuguesas, a capoeira passou de uma ferramenta para a sobrevivência individual a uma arte marcial com escopo militar.

Foto - Pierre Verger

O maior dos quilombos, o Quilombo dos Palmares, resistiu por mais de cem anos aos ataques das tropas coloniais. Mesmo possuindo material bélico muito aquém dos utilizados pelas tropas coloniais e geralmente combatendo em menor número, resistiram a, pelo menos, 24 ataques de grupos com até 3 000 integrantes comandados por capitães do mato. Foram necessários dezoito grandes ataques de tropas militares do governo colonial para derrotar os quilombolas. Soldados portugueses relataram ser necessário mais de um dragão (militar) para capturar um quilombola, porque se defendiam com estranha técnica de ginga e luta. O governador-geral da Capitania de Pernambuco declarou ser mais difícil derrotar os quilombolas do que os invasores holandeses.

 

Foto: Pierre Verger

 

A Urbanização

Com a transferência do então príncipe-regente dom João VI e de toda a corte portuguesa para o Brasil em 1808, devido à invasão de Portugal por tropas napoleônicas, a colônia deixou de ser uma mera fonte de produtos primários e começou finalmente a se desenvolver como nação.Com a subsequente abertura dos portos a todas as nações amigas, o monopólio português do comércio colonial efetivamente terminou. As cidades cresceram em importância e os brasileiros finalmente receberam permissões para fabricar no Brasil produtos antes importados, como o vidro.

 

Foto: Pierre Verger

Já existiam registros da prática da capoeira nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e Recife desde o século XVIII, mas o grande aumento do número de escravos urbanos e da própria vida social nas cidades brasileiras deu à capoeira maior facilidade de difusão e maior notoriedade. No Rio de Janeiro, as aventuras dos capoeiristas eram de tal jeito  que o governo, através da portarias como a de 31 de outubro de 1821, estabeleceu castigos corporais severos e outras medidas de repressão à prática de capoeira.

METER O ANDANTE - Revista A Lamparina - por: Kalixto, 1906.

Mestre Pastinha: 

Vicente Ferreira Pastinha nasceu a 5 de abril de 1889, em Salvador. Foi “o primeiro capoeirista popular a analisar a capoeira como filosofia e a se preocupar com os aspectos éticos e educacionais de sua prática”[1]. Pastinha foi uma das figuras mais queridas de toda a Salvador, por sua extrema devoção à capoeira.

Mestre Pastinha - http://www.oocities.org/valdo_com/mestre_pastinha.htm

Mesmo depois de idoso, jogava capoeira como um jovem exímio, executando sua movimentação com perfeição e agilidade. No prefácio do livro publicado em 1964, intitulado “Capoeira Angola”, de autoria de Pastinha, José Benito Colmenero afirma que Pastinha teve como mestre de capoeira um negro angolano chamado Benedito. Mas a maioria dos capoeiristas que o conheceram afirma que seu mestre foi Aberrê (na verdade, houve vários “Aberrês” na Capoeira). De Mestre Pastinha, já disseram ser ele… “o guardião da liberdade de criação, da inocência dos componentes lúdicos, da beleza da coreografia… … o gênio que desvendou em palavras simples e puras os aspectos místicos da capoeira. Será sempre simbolizado pela ‘Chamada’, com que arrefecemos o calor da disputa entre vontades que se contrapõem. A Mão Amiga estendida para o Alto, lembrando…

…Somos todos Irmãos à luz do MESTRE A Paz entre os Capoeiristas de Boa Vontade.”

Não é de hoje que a Capoeira luta por um reconhecimento:

 

Na história dos esforços pelo reconhecimento da Capoeira como esporte ou luta nacional de origem étnico brasileira, há um verdadeiro calendário.
Em 1907, apareceu um trabalho, cujo autor se ocultou sob as iniciais O.D.C. (Ofereço, Dedico e Consagro), intitulado O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira.
Em 1928, Annibal Burlamaqui assina Ginástica Nacional (Capoeiragem) Metodizada e Regrada.
Em 1932, fundação do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, do Mestre Bimba.
Em 1937, registro oficial do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional.
Em 1942, foi feito um inquérito pela Divisão de Educação Física do Ministério da Marinha, consultando sobre os melhores elementos para a instalação de um método de ensino da Capoeira.
Em 1945, Inezil Penna Marinho lança o livro Subsídios Para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem.
Em 1960, Lamartine Pereira da Costa, então oficial da Marinha, diplomado em Educação Física pela E.E.F.E e instrutor chefe dos cursos da Escola de Educação Física da Marinha, CEM-RJ, lança um livro que se tornou clássico: Capoeiragem – A Arte da Defesa Pessoal Brasileira.
Em 1968, Waldeloir Rego lança o livro Capoeira Angola – Ensaio Sócio-Etnográfico, considerado um dos mais completos sobre Capoeira.
Em 01 de janeiro de 1973, entra em vigor o Regulamento Técnico da Capoeira, oficializando a Capoeira como o ESPORTE NACIONAL BRASILEIRO.
Em 27 de outubro de 1973 são registradas várias associações de capoeira no rio de janeiro.
Em 14 de julho de 1974 é fundada a Federação Paulista de Capoeira (FPC).
Em 17 de maio de 1984 é fundada a liga de capoeira cordel vermelho em Minas Gerais
Em 20 de julho de 1984 é fundada a Federação de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro (FCERJ).
Em 21 de abril de 1989 é fundada a Liga Niteroiense de Capoeira (LINC).
Em 23 de outubro de 1992 é fundada a Confederação Brasileira de Capoeira (CBC).
Em 13 de maio de 1995 é fundada a Federação de Capoeira Desportiva do Estado do Rio de Janeiro (FCDRJ).
Em 03 de junho de 1995 é fundada a Liga Carioca de Capoeira.

2013 – Agora a luta é por um reconhecimento mundial:

Abaixo – assinado / Campanha de apoio à candidatura da Rode de Capoeira à lista representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade:

A Unesco, organização internacional de educação e a cultura, vai se reunir em 2013 para avaliar a inclusão da Roda de Capoeira na lista representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade. O Brasil já tem 2 manifestações culturais (bens imateriais) declaradas nessa lista, o samba de roda do Recôncavo Baiano e a arte gráfica dos índios Wajãpi. Em 2013 pode ser a vez da Roda de Capoeira. È mais um passo na consolidação da Capoeira como expressão original do povo brasileiro que se oferece aos povos do mundo como prática, atitude de vida, pensamento, técnica, esporte, prazer, arte e cultura.

Não é só mais um título bonito para colocar na parede nem é mais um simples reconhecimento para compor discursos de exaltação. Vai além. É um pacto entre o Brasil (governo e sociedade) e o mundo para aumentar as bases de expansão das nossas raízes. Um passaporte a mais para abrir fronteiras e dar o tom brasileiro, detentor absoluto das raízes dessa prática, no cenário internacional. O título é um ato de fortalecimento que não interfere na autoria da Capoeira nem na autoridade dos Mestres. A Capoeira continua fiel a sabedoria dos que a criaram sem perder direitos nem sofrer intervenção em seu conceito ou prática. O que se abre é a possibilidade de criação de mais estrutura e força política. Obriga governos e instituições a um zelo mais profundo no incentivo e manutenção das políticas públicas com investimentos continuados e programas definidos a partir do diálogo.

O mundo da Capoeira sabe o valor histórico da luta e o quanto se avançou até aqui. Sabe o tamanho do desafio para prosseguir e o tanto que se exige para uma paixão sair da semente até virar tronco forte na vida. O título da Unesco será mais uma conquista nesse caminho. A Capoeira precisa do comprometimento de muitas parcerias e pontes para ter a chance de se mostrar autêntica e única. Sem perder o tom da raiz brasileira e da sua nem entregar suas raízes para oportunistas. Ninguém “vira patrimônio da humanidade”, do nada. É um processo longo em que o mundo reconhece a realidade que já existe e vai ajudar na estratégia de continuidade mais forte dessa prática, saber, paisagem, pensamento ou celebração.

A Unesco é mais uma aliada nessa luta. Esta organização internacional foi criada para oferecer condições de diálogo entre culturas, nações e povos com respeito aos direitos humanos, às diferenças culturais comprometidas em trabalhos pela paz e diminuição das desigualdades econômicas entre as nações. Por isso a Unesco desenvolve políticas e projetos em vários países, através de acordos de cooperação técnica e convênios com governos e sociedade na salvaguarda do patrimônio cultural e natural de todo o mundo.

São positivos os resultados desses processos para os grupos que constituem a base social das expressões culturais reconhecidas. Crescem além da visibilidade, criam maior respeitabilidade no trato com o Estado, ampliam possibilidades de fomento a projetos e ações para disponibilizar e adequar espaços físicos para centros de referência, aquisição de acervos, equipamentos e matérias primas, oficinas de transmissão de saberes, treinamentos em pesquisa e gestão de políticas de salvaguarda, ações educativas e edições diversas, até encontros, seminários e outras ações.

A capoeira já tem régua e compasso para traçar seu caminho no mundo. Já tem seu reconhecimento consagrado em inúmeros países e cresce na dedicação daqueles praticantes sempre fiéis a sabedoria dos seus Mestres. Mas há sempre o que se firmar mais. Esta construção coletiva se faz mais complexa atualmente. A exigência de organização da base social precisa contar mais e mais com ferramentas, estratégias e políticas para estabelecer os termos da difusão da prática sem perda da essência que é a própria seiva que legitima tudo. O nosso mundo da Capoeira não perde seu chão quando fica mais forte o jogo da Capoeira no mundo.

O título fortalece o argumento dos que desejam avançar a Capoeira no mundo, pois o mundo se abre melhor para receber, entender, pesquisar, jogar e trocar com mais esta riqueza da diversidade cultural brasileira. Não se perdem direitos de uso nem se concede práticas sem direitos: é um título que legitima quem faz, dentro e fora do país, e funciona para melhor abrir as fronteiras. Um mundo que reconhece o valor da nossa casa é um mundo que nos convida a entrar pela porta da frente.

A lista a ser enviada a Unesco é de responsabilidade do Iphan e tem como base um dossiê de candidatura redigido a partir de pesquisas já realizadas no registro da Roda de Capoeira e do Ofício de Mestre de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O Grupo de Trabalho Pró-Capoeira coloca na roda o encaminhamento deste dossiê à Unesco. Todas as demandas e propostas levantadas nos Encontros Pró-Capoeira foram consideradas na elaboração do dossiê. Após a finalização da candidatura uma comissão intergovernamental decidirá sobre a pertinência da inscrição.

É com essa intenção que o Iphan encaminha aos capoeiras do Brasil esta Lista de Adesão sobre as candidaturas da Roda de Capoeira à Lista Representativa da Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.

Sua assinatura de adesão é recebida como incentivo para que esta luta não perca força e mantenha a ginga por tantos anos, fortalecida na superação de adversidades. Dessa luz se alimenta a luta da Capoeira aberta para os povos que desejam e precisam se abrir mais e mais para o nosso mundo da Capoeira.

Assine aqui

"Jogar Capüera ou Dance de la Guerre"
RUGENDAS, J.M. Voyage pittoresque et historique dans le Brasil. Paris: Engelmann et Cie, Paris, 1834.

Fontes:

Centro de Referência da capoeira Carioca

História da Capoeira

Artesã – Ofício das mulheres que laboram, arrimam e sustentam.

O celophane Cultural sempre teve um respeito e admiração por uma forma de aprendizado chamada “Ofìcio” aquela profissão que se se aprende com a avó, com a mãe, com as irmãs mais velhas. No mês dedicado a elas a Mulher Artesã é homenageada em uma exposição no RJ.

ARTESÃ

O primeiro ‘bem’ registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil foi o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras. Ofício feminino, por excelência, como tantos outros espalhados pelo Brasil que são referência cultural em suas regiões.

Paneleiras de Goiabeiras - ES - Foto: Fábio Canhim - http://www.flickr.com/photos/fabiocanhim/

Os barreiros têm características próprias, conhecidas, tratadas e aproveitadas pelas artesãs, que esculpem louças e figuras de diferentes texturas, acabamentos e cores, seja em Goiabeiras (ES) ou em Poxica (SE), em Coqueiros (BA) ou em Campo Alegre (MG).

Foto: Francisco Moreira da Costa CNFCP

Outras artesãs lidam com o capim dourado, o buriti, o fruto da cuieira, fibras e algodão – raspando, fiando e tingindo, cortando e trançando. Geram desde meadas até redes de dormir, de cestas a rendas, manejando pincéis, agulhas, estiletes e bilros.

Carla Aline de Jusus e sua filha, trabalhando na oficina de Dona Tonha, Antonia de Jesus, na Rua das Palmeiras em Coqueiro, Maragogipe, Bahia - Foto Francisco Moreira da costa - CNFCP

Ofícios e artes que aprenderam com suas mães e avós, que redescobriram juntas ou que inventaram, por sua conta e risco. Para inventar, bastou-lhes um tantinho de barro, telas e tintas, retalhos de pano ou mesmo papéis de bala e tiras de plástico. Bastou-lhes corpo hábil e alma caprichosa.

Artes e ofícios das mulheres – laboram a vida, arrimam e sustentam, enfeitam a casa e o mundo. Desde sempre. Aqui e ali.

No Vão do Urucuia: Fios que entrelaçam saberes - foto Francisco Moreira da Costa - CNFCP

A mostra Artesã, que homenageia o Dia Internacional da Mulher, traz a arte da renda de bilro de Canaan, CE; da rede de Limpo Grande, MT; da cerâmica de Campo Alegre, MG; das bonecas de Esperança, PB; e das artistas plásticas Ermelinda, do Rio de Janeiro, RJ, e Efigênia Rolim, de Curitiba, PR.

Foto: Francisco Moreira da Costa CNFCP

Artesanato e Folclore:

Uma forma de sobrevivência e arte misturadas, uma discussão que muitos estudiosos condenam por ser uma produção em massa quase industrial, por ser chamado de “artesanato” de “Folclore”, palavras carregadas de um preconceito severo e pesado, cristalizando assim a criatividade natural do nosso povo mas que sobretudo precisam  imediatamente “sobreviver”.

Segundo Lina Bo Bardi no seu exelente livro: “Tempos de Grossura – O Design do Impasse”:

“…Quando a produção popular se petrifica em folklore as verdadeiras e suculentas raizes culturais de um País secam…”

Mas como resolver o problema destas mulheres e homens que tem o Ofício como única fonte de sobrevivência? como podemos incentivar uma criatividade menos ligada ao prato de comida? de que forma destacamos e incentivamos verdadeiros artistas que estão enfronhados nestes cantos do país?

Serviço

Sala do Artista Popular ARTESÃ

Até 15 de abril de 2012

Exposição e venda:

Terça a sexta-feira, das 11h às 18h

Sábados, domingos e feriados, das 15h às 18h

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – Rua do Catete, 179, Anexo (ATENÇÂO: acesso pelo Parque do Palácio do Catete)

Fonte:

Release da exposição – Artesã – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP

Ver também os posts sobre o assunto no blog:

Rendeiras, as mulheres que tecem o dia a dia com finos fios.

As Paneleiras de Goiabeiras – Raiz da Cultura Capixaba

O Bê-a-ba das Pipas

O Celophane Cultural traz uma contribuição  de Jorge C Moreira um amante da arte de soltar pipas:

 

Bê-a-ba da Pipa
*Á brinca cruza informal, em que se devolve a pipa abatida ao dono.
*aparar cruza, combate para valer. Quem cortar a linha de outro tem o direito de levar a pipa/o papagaio como troféu.

*arrastar na mão pipeiro que esta mais atrás, que debica a sua pipa nas dos da frente, cortando-as com muita linha.

*carretel de linha 10 tipo de linha preferida dos pipeiros – Linha Marca Corrente nº 10 (agora é linha chilena).

*catreco, jereco ou molambo – pipa mal-feita, maltrapilha, em péssimo estado.

*cerol – O cerol é uma mistura cortante de pó de vidro ou pó de ferro e cola cozida de madeira utilizado na linha da pipa com o objetivo de cortar / cruzar a linha de outra pipa oponente.

 

Menino Empinando pipa - Foto LUiz Neto - Assu RN - http://www.flickr.com/photos/sicalis/

*cola de arroz  – ao fazer a armação da pipa (vareta, presas com linhas),quando não tinha cola, usava colar o papel na armação com arroz usado.

*cortar cruzar com outras pipas e cortar sua linha.

*crocodilagem – acordo entre pipeiro/empinadores para atrair pipa/papaguaios a uma armadilha, ou qualquer ato que fira o código de etica dos pipeiros.

*cruza, combate ou guerra – batalha entre duas ou mais pipas.

*culhão de gato – linha com duas pedras amarradas nas pontas, usadas para jogar nas linhas da pipas que estavam no ar.(roubo de pipas no ar)

*dar de chapeu/dar tabua - é quando a pipa cai por defeito

*debicar – mergulhar a pipa,manobrando a linha com puxões sucessivos

 

Empinando Pipa - Fonte: Wickpedia.

 

 

*empinar, soltar – colocar e mover a pipa no ar.

*estancar – quando a linha arrebenta sem motivo aparente.Denomina também um movimento usado para desprender uma pipa enroscada.

*maranhão – é como os paulistas chamam a pipa carioca de papel seda.

*pipa, Papagaio, cafifa, balde, zoeira, arraia – brinquedo que usa o vento para voar.
brinquedo consistente de varetas de bambu cobertas de papel fino e que se empina através de uma linha, permanecendo no ar

*pipa avoada – pipa que foi cortada ou estancada.

*rabiola – fitinhas de papel ou de plasticos amaradas em uma linha e presa na pipa, para estabilizá-la no ar.Alguns meninos usavam 1/2 de uma gilete,na ponta da rabiola p/cortar outras pipas.

*tança – designação da linha em Portugal

*temperar – passar cerol na linha.

*varetas de bambu ou taquara – estrutura da pipa.

 

Pipas dos mais diferentes formatos - Fonte: Wickpédia

 

*linha poida linha-dentinho – geralmente sabotagem feita na linha, dentadas na linha, para quando a pipa fosse colocada no ar, ela arrebentasse.

*braçadas controle da pipa no ar- fazendo ela subir ou descer , ou qdo cruzava e as duas ou mais pipas ficassem emboladas, dava-se braçadas, para trazer a pipa para mais perto de s/dono.

*carretilhas – onde se enrolava a linha para soltar pipa.
“dar linha

*eolista – especialista em pipas; o nome vem de “Eólo”, Deus dos Ventos…

*O mês certo para soltar papagaios é o oitavo mês do ano – Agosto – quando os ventos são constantes e fortes.

*Os empinadores de pipas usam a imaginação para chamar os ventos com pequenas orações, invocando algum santo para que traga o vento certo, afim que sua pipa voe livre e solta pelos céus.

Vários são os nomes dados a esse objeto de competiçao e jogo.

ARRAIA no norte da Bahia e Sergipe.

PIPA no centro e sudeste do Pais.

PANDORGA no sul como em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

"Menino com Pipa" - Cândico POrtinari - 1954

ARRAIA JAMANTA, CURICA na Amazonia e Pará.

ARRAIA, BARRIL, BOLACHA. CANGULO, ESTRELA, PECAPARA no Cearà.

ARRAIA, GAMELO no Pernambuco.

RAIA, CAFIFA, ESTILÂO, PIÂO no Rio de Janeiro.

PIPA, PAPAGAIO,GAIVOTA ARRAIA, RAIA, QUADRADO em Sao Paulo.

 

"Meninos Soltando Pipas" Cândido Portinari de 1943

 

A História das Pipas

A história das pipas é recheada de mistérios, de lendas, símbolos e mitos, mas principalmente de muita magia, beleza e encantamento. Tudo de ter começado quando o homem primitivo se deu conta de sua limitação diante da capacidade de voar dos pássaros. Essa frustração foi o mote para que ele desse asas a sua imaginação.

O primeiro vôo do homem está registrado na mitologia grega e conta que Ícaro e seu pai, Dédalo, aprisionados no labirinto de Creta pelo rei Minos, tentaram alcançar a liberdade voando. Construíram asas com cera e penas e conse-guiram escapar. Apesar das recomendações do pai embevecido pela possibilidade de dominar os ventos, Ícaro negligenciou a prudência e chegou muito perto do Sol, que derreteu a cera das asas e precipitou-o ao mar matando-o.

Dedalo e Icaro

De qualquer forma o homem não parou por aí. Mesmo levando em conta o estranho acidente da lenda de Ícaro, ele continuou a ousar, desafiando a natureza com sua imaginação. As pipas nascem desta tentativa frustrada de voar, quando o homem transferiu para um artefato de varetas, papel, cola e linha sua vontade intrínseca de planar, de alçar vôo de terra firme.Teorias, lendas e suposições tendem a de-monstrar que o primeiro vôo de uma pipa ocorreu em tempos e em várias civilizações diferentes, mas, com toda certeza, a data aproximada gira em torno de 200 anos antes de Cristo. O local: China.

No Egito hieróglifos antigos já contavam de objetos que voavam controlados por fios. Os fenícios também conheciam seus segredos, assim como os africanos, hindus e polinésios. Até o grande navegador Marco Polo (1254 – 1324) explorando-lhe as potencialidades, embora levado por motivos menos lúdicos. Conta-se que, em suas andanças pela China, ao ver-se encurralado por inimigos locais, fez voar uma pipa carregada de fogos de artifício presos de cabeça para baixo, que explodiram no ar em direção à terra, provocando o primeiro bombardeio aéreo da história da humanidade.Nos países orientais foi e continua sendo grande a utilização de pipas com motivos religiosos e místicos, como atrativo da felicidade, sorte, nascimento, fertilidade e vitória. Exemplo disto são as pipas com pintura de dragões, que atraem a prosperidade; com uma tartaruga (longa vida); coruja (sabedoria) e assim por diante.

Outros símbolos afastam maus espíritos, trazem esperança , ajudam na pesca abundante. As pinturas com grandes carpas coloridas representam e atraem o desenvolvimento do filhos. Nesses aspectos mistico-religiosos, continua sendo muito grande a utilização de pipas como oferenda aos deuses nos países orientais.
Um dos quatro elementos fundamentais da civilização ocidental, o vento no caso das pipas, passou rapidamente de inimigo a aliado, pois com o domínio correto de suas correntes e velocidades, o homem conseguiu inteligentemente chegar perto do sonho de voar. O grande mestre e pesquisador de pipas e ação dos ventos é um eolista, palavra criada a partir de Éolo, o deus dos ventos na mitologia grega. Quando Ulisses, famoso personagem do livro Odisséia, de Homero, chegou à ilha Eólia, foi muito bem recebido pelo rei, que o hospedou e a seus companheiros durante um mês.

Ao partir, o herói recebeu uma caixa contendo todos os ventos e que deveriam continuar aprisionados, com exceção de um, que, solto, levaria o navio diretamente de volta a Ítaca, sua cidade natal. No caminho os companheiros de Ulisses imprudentemente abriram a tampa, pensando que continha vinho. Saíram de dentro da caixa os ventos proibidos e furiosos que tocaram o navio para trás. Éolo entendendo que aquela gente teria alguma oculta maldição dos deuses, não os ajudou e ainda por cima os expulsou da Eólia.

A histórias das pipas data de muitos séculos e se confunde com a própria história da civilização, sendo utilizada como brinquedo, instrumento de defesa, arma, objeto artístico e de ornamentação. Conhecido como quadrado, pipa, papagaio, pandorga, barrilete ou outro nome dependendo da região ou país, ela é um velho conhecido de brincadeiras infantis. Todos nós, com maior ou menor sucesso, já tentamos empinar um. E temos obrigação de preservar sua beleza e simbologia, pois uma infância sem pipa certamente não é uma infância feliz. As pipas adornam, disputam espaço, fazem acrobacias, mapeiam os céus. São a extensão natural da mão, querendo tocar nas ilusões.

Fontes:

História das Pipas

Materia na Rede Suburbio Carioca

Pequi, a fruta dourada do grande sertão veredas.

Ouro do Sertão

O famoso Pequi é uma fruta que nasceu no cerrado brasileiro, super utilizada e consumida na culinária. Sim é aquela do Arroz com Pequi famoso prato consumido em Belém e em Goiás.

O Pequizeiro ás vezes chega a 10m de altura, um tronco grosso, torto de casca muito grossa é protegido por lei que impede seu corte e venda. Das folhas vem o Tanino uma tinta usada por tecelãs.

Pequizeiro florido. Tatagiba, setembro de 2006, município de Nova Roma-GO, Vão do Rio Paranã.

AS lindas  e grandes flores brancas e amarelas, de agosto a Novembro, enfeitam as casas de quem tem um pé desta produtiva árvore. O fruto do tamanho de uma laranja que nasce de novembro a fevereiro, redondo, esverdeado como um abacate, está pronto para consumo quando sua casca amoleçe.

Pequi - Arcos MG -foto: Edmilson Carlos

De como, no prazo duma hora só, careci de ir me vendo escorando rifle (…)

trepado em jatobá e pequizeiro, deitado no azul duma lage grande.

João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.

A deliciosa e suculenta polpa é bem amarelada e com um caroço no meio, cheio de espinhos que fere as gengivas dos desavisados e gulosos que nele cravam os dentes. Lamber chapéu de couro é a única alternativa para retirar seus espinhos da língua daqueles mais descuidados.

Seu sabor é único (assim como o é o do buriti e o do jatobá, entre outros), não há fruta que se possa comparar.

Fruto do pequi - Frutos do Brasil site Arara.

Não acredite em quem diz que o cheiro do pequi é forte, enjoativo; é preciso experimentar para realmente conhecer. Não tente se convencer que é bom, deixe-se ser convencido.

É também conhecido como piqui, piquiá, pequerim, amêndoa-de-espinho, grão-de-cavalo, suarí. A palavra pequi, na língua indígena, significa “casca espinhosa”.

De alguns anos pra cá o pequi tem sido valorizado na cozinha brasileira sendo estudado seu potencial nutritivo e usado em várias receitas e misturas pelo Brasil afora. Mas para o povo do grande sertão veredas  o pequi é o verdadeiro “Ouro do sertanejo” mais um simbolo de cultura persistência e tradição de um povo.

“O Garanço se regalava com os pequís, relando devegar nos dentes aquela

polpa amarela enjoada. Aceitei não, daquilo não provo: por demais distraído que sou,

sempre receei dar nos espinhos, craváveis em língua”

João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas pg. 184.

No livro Cerrado: espécies vegetais úteis, seus autores dedicam sete páginas ao pequi (também conhecido como piqui, piquiá ou piqui-do-cerrado), discorrendo sobre sua ocorrência, distribuição, floração, botânica, uso, entre outros. Pode ser consumido com arroz, feijão, galinha, ou batido com leite e açúcar. Seu uso medicinal tem efeito tonificante, sendo usado contra bronquites, gripes e resfriados, é expectorante, e o chá de suas folhas é tido como regulador do fluxo menstrual.

 

“Essa planta produz abundantes frutos do tamanho de uma laranja, de polpa oleosa e feculenta, muito nutritiva. É a delícia para os moradores do Ceará e Piauí. A árvore atinge a altura de cinqüenta pés, com grossura proporcional. Sua madeira é de tão boa qualidade para a construção naval quanto a cicopira (Sucupira, Bowdíchia virgilioides, H.B.K., dizemos hoje). Cresce muito bem nos terrenos arenosos chamados em Pernambuco tabuleiros e no Piauí chapadas, sendo muitíssimo vantajoso o seu cultivo nos tabuleiros que bordam o litoral e que estão presentemente inúteis. Presta grande auxílio ao povo nas épocas de seca e de fome.”

(Braga, Renato. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia da alimentação no Brasil, p.187-188)

AS filhas do pequi

Mas o pequi é mais que isso!
Há histórias de crianças “filhas do pequi” – aquelas que nascem exatamente nove meses após a temporada do fruto, pois ele é tido também como afrodisíaco.  Conta-se também que as índias esfregavam o fruto nas partes íntimas para evitar que seus companheiros as procurassem (algo que não devia adiantar muito porque, para quem gosta, o aroma do pequi é irresistível).

Conheça a Lenda do Pequi

…-Como se chamará, Cananxiué, esse fruto, cujo coração são os espinhos de minha dor, cuja cor são os cabelos de ouro de Uadi e cujo aroma é inesquecível como o cheiro dessa mata, onde brinquei com meu filhinho?

-Chamar-se-á Tamauó, pequi, minha filha. Quero ver-te alegre de novo, pois te darei muitos filhos, fortes e sadios como Maluá. E teu marido voltará cheio de glória da batalha, pois muitos séculos se passarão até que nasça um guerreiro tão destemido e tão honrado! Ele comerá deste fruto e gostará dele por toda a vida!”

Tainá-racan sorriu. E o pequizeiro começou a brotar…

Tirando a polpa do pequi. Imagem do filme Cheiro de Pequi. Vídeo nas Aldeias, Imbé Gikegü, Takumã Kuikuro e Maricá Kuikuro

Arroz com Pequi

Ingredientes:
1/4 de xícara de chá de óleo ou banha de porco
1/2 litro de pequi lavado
2 dentes de alho espremidos
1 cebola grande picada
2 xícaras de chá de arroz
4 xícaras de chá de água quente
Sal a gosto
Pimenta-de-cheiro ou Malagueta a gosto
Salsinha, cebolinha picada a gosto.

Modo de Preparo:
Coloque o pequi no óleo ou gordura fria (se usar o fruto inteiro, não é preciso cortar, mas cuidado com o caroço). Acrescente o alho e a cebola e deixe refogar em fogo baixo, mexendo sempre com uma colher de pau para não grudar na panela, e respingue um pouco de água quando for necessário. Quando o pequi já estiver macio e a água secado, acrescente o arroz e deixe fritar um pouco. Junte a água e o sal. Quando o arroz estiver quase pronto, coloque a pimenta-de-cheiro ou malagueta a gosto. Na hora de servir, polvilhe o arroz com salsa e cebolinha e um pouco de pimenta.

Observações:
Para esta receita, não utilize panela de ferro, pois a fruta fica preta.
Cuidado! Se você morder o caroço, ficará com a boca cheia de espinhos. O jeito certo de comer o pequi é roendo. Dica:
Para acompanhar, carne-de-sol frita ou assada no espeto sobre brasas.

Mais receitas com Pequi

Galinhada no Pequi - Foto site Rainhas do Lar

Fontes:

REvista Overmundo

Site: Arara

Revista do Cerrado – Altiplano

Blog Plantas do Cerrado

A Arte Popular coletada por LIna Bobardi revive em exposição na Bahia

O Celophane Cultural vem mostrar que Salvador nesta época não tem só Carnaval, uma dica de exposição no pelourinho pra dar uma descansada da folia e conhecer um pouco mais deste Brasil pelo OLhar da arquiteta LIna BO Bardi.

 

peças coletadas no nordeste brasileiro pela arquiteta Lina Bo Bardi

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

O acervo de peças coletadas no nordeste brasileiro pela arquiteta Lina Bo Bardi, que estava guardado desde 1965, é reaberto para o público, no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador.

Foto: Luciano Oliveira

A mostra “Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi” reúne mais de 800 peças entre utensílios de madeira, objetos de barro, pilões, santos e objetos de candomblé que resistiram às mudanças e viagens da coleção original, que chegou a contar 2 mil itens.

 

Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

Lina Bo Bardi (1914-1992), arquiteta italiana que estabeleceu-se no Brasil em 1946 e é conhecida por projetos como o Masp e o Sesc Pompéia, em São Paulo, mudou-se para a Bahia no final dos anos 1950 e começou a pesquisar a arte popular nordestina. “Lina considerou essas peças como algo contemporâneo, como objetos de design, num pensamento livre dos vícios e preconceitos acadêmicos e europeus que reinavam na época”, afirma o diretor de museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, Daniel Rangel.

 

Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

Logo no início do período de ditadura militar (a partir de 1964, depois da deposição do presidente João Goulart), Lina Bo Bardi foi exonerada do cargo de diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia por ter se negado a liberar o foyer do teatro Castro Alves (onde estava temporariamente instalado o MAM) para uma exposição de armamento de guerra. Um ano mais tarde, a exposição “Nordeste do Brasil” (com partes do acervo que será exibido agora em Salvador) foi impedida de estrear na Galeria de Arte Moderna, em Roma.

 

Saiba mais sobre o episódio:

ZEVI, Bruno. A arte dos pobres apavora os generais, Revista da Civilização Brasileira, n.2, maio 1965. Traduzido do L’Espresso de Roma, março 1965 [artigo publicado quando o governo brasileiro impediu a realização da Exposição Nordeste na Galleria d'Arte Moderna em Roma]

 

Após o episódio, recortes da coleção de Lina Bo Bardi chegaram a ser expostos em mostras como “A Mão do Povo Brasileiro”, de 1969, no Museu de Arte de São Paulo, e “Design no Brasil, História e Realidade”, de 1982, no Sesc Pompéia, ambas em São Paulo.

Planta expográfica e conjunto da exposição 'Bahia' realizada no antigo 'Pavilhão Bahia' sob a marquise do Parque do Ibirapuera em São Paulo, 1959 -

 

BAHIA. Exposição no Parque do Ibirapuera, São Paulo, Brasil, 1959. [Bahia]: [s.n.], 1959. Parque do Ibirapuera, São Paulo, 1959. Folheto de Exposição. Textos de Jorge Amado, Lina Bo Bardi e Martim Gonçalves. Arquivo do Núcleo de Museologia do Museu de Arte Moderna da Bahia. In: Habitat, São Paulo, n.56, 1959

“Bahia” é preparada por Lina e Martim Gonçalves em Salvador e trazida para São Paulo durante a V Bienal Internacional.O universo ligado à Bahia torna-se o centro dessa exposição: suas cidades,sua arquitetura,festas,crenças,arte popular,culinária,música,objetos do cotidiano e sua população que vêm representados de diversas formas,seja por fotografias,pela presença dos objetos ou pela recriação de um ambiente que os situam na realidade.

 

Planta do térreo e conjunto da exposição 'Nordeste' realizada no 'Museu de Arte Popular do Unhão' em Salvador, 1963 - acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

 

Planta do primeiro pavimento e conjunto da exposição - acervo Instituto Lina Bo Bardi

Planta expográfica e conjunto da exposição 'A mão do povo brasileiro' realizada no 'Museu de Arte de São Paulo', 1969-acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

Em “A mão do povo brasileiro” apresenta-se através de um mesmo suporte que é reorganizado diante dos objetos que deve expor, inúmeros elementos do mobiliário, instrumentos, adornos, vestuário, cerâmica, esculturas, figuras religiosas e brinquedos realizados no Brasil. Objetos que são colocados lado a lado e misturados no espaço da exposição, sem uma separação clara, mas mostrados como conjunto.

 

 

Centro de Lazer SESC Fábrica da Pompéia, espelho d'água 'Rio São Francisco', as quatro exposições seguintes são realizadas neste mesmo galpão

Exposição 'Design no Brasil: história e realidade' SESC Pompéia de 1982

Exposição 'Mil brinquedos para a criança brasileira' SESC POmpéia de 1982-3 - acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

Exposição 'Caipiras, capiaus: pau-a-pique' de 1984 - Acervo Instituto LIna Bo Bardi

 

Exposição 'Entreato para crianças' de 1985 - fonte Instituto Lina Bo Bardi

 

O DESIGN NO BRASIL: história e realidade. São Paulo: SESC – Fábrica Pompéia, MASP, 1982. Centro de Lazer SESC Fábrica Pompéia, São Paulo, fevereiro a julho 1982. Textos de Pietro Maria Bardi, José Mindlin e Alexandre Wollner. Catálogo de Exposição MIL BRINQUEDOS

PARA A CRIANÇA BRASILEIRA. Lina Bo Bardi et al. montagem. São Paulo: SESC – Fábrica Pompéia, MASP, 1982. Centro de Lazer SESC Fábrica Pompéia, São Paulo, dezembro 1982 a julho 1983. Texto de Pietro Maria Bardi. Catálogo de Exposição.

Design e Mil brinquedos, além de apresentarem os objetos antigos, como nesta exposição A Mão, abrem espaço para a mais recente produção industrial. As quatro exposições do SESC possuem uma particularidade pelo fato de não se realizarem em um contexto de museu,mas sim em um Centro de Cultura e Lazer projetado por Lina, situação que permite uma maior relação entre as exposições aos conceitos presentes na arquitetura da Fábrica da Pompéia.

Nessas duas primeiras exposições é possível dizer que existe uma espécie de separação no espaço entre a produção “antiga-artesanal” e a “recente-industrial”, apesar de uma se encontrar espacialmente ao lado da outra.Na exposição Design, no início estão os objetos artesanais e ao fundo os produtos industrializados e o design gráfico. Assim, como a exposição Mil brinquedos que de um lado apresenta os brinquedos antigos e de outro os industrializados.

Em “Caipiras,capiaus:pau-a-pique” a relação “artesanal”-”industrial” é dada não pela presença simultânea dos elementos artesanais e industriais, como ocorre nas outras exposições, mas sim pela realização de uma exposição que recria os aspectos da vida do interior rural de São Paulo e Minas Gerais inserindo-os no contexto urbano-industrializado do Centro de Lazer em São Paulo. Ai são construídas as casas de pau-a-pique, o forno a lenha e o alambique pelos habitantes dessas regiões que foram trazidos ao SESC para montar a exposição à maneira como organizam sua vida. O interior das casas foi ambientado com seus objetos, assim como a venda, o paiol e a capela.

 

O Centro Cultural Solar do Ferrão

Reaberto em 2008 com o novo conceito de Espaço Cultural, o Centro Cultural Solar do Ferrão uma das mais antigas edificações do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador (CHS),  é um espaço dedicado a arte, cultura, história e memória da população baiana.

Além da biblioteca, o espaço abriga uma galeria de arte homônima e outras três importantes coleções de arte sacra, africana e popular que possibilitam o dialogo entre os povos que deram origem aos baianos: africanos, indígenas e portugueses.

Saiba mais pouco mais sobre LIna Bo Bardi

 

Lina na sala da Casa de Vidro, 1952 Foto de Fernando Albuquerque

 

Fontes:

Instituto Lina Bobardi

Matéria de 17/03/2009 – UOL – Acervo de arte popular coletado por Lina Bo Bardi é exibido na Bahia

TRabalho final de Graduação da FAU/USP  – Mayra de Camargo Rodrigues – Luciano Migliaccio – Exposições de LIna Bo Bardi

 

Lina na Casa de Vidro, 1952 Foto do arquivo pessoal

 

 

“Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi”

Onde: Centro Cultural Solar Ferrão – r. Gregório de Mattos, 45, Pelourinho, Salvador/BA – tel. (71) 3116-6467
Quando: Exposição de longa duração desde 17 de Março de 2009.

Visitação de terça a sexta, das 10h às 18h; finais de semana e feriados, das 13h às 17h
Quanto: Grátis

Batuque na cozinha sinhá num qué… samba com feijoada.

O Celophane Cultural continuando em rítmo de samba, vai buscar na culinária a mistura mais perfeita que existe: Samba e Feijoada.

O Artigo foi retirado da Revista Continuum

do Itaú Cultural de Janeiro de 2010

“Muito já se falou sobre o samba nas letras das canções. Que ele é branco na poesia e negro demais no coração;
que ele é pai do prazer e filho da dor; que ele é o grande poder transformador; que quem não gosta de
samba bom sujeito não é; que o samba da minha terra deixa a gente mole; que o morro foi feito de samba;
que um samba quente, harmonioso e buliçoso mexe com a gente e dá vontade de viver… Muito também já
se refletiu (e com certeza vai se refletir) sobre o samba em teses, artigos, debates.

Para dar sua contribuição ao tema, nesta edição a Continuum se concentrou em alguns dos aspectos que ajudaram a construir o imaginário do samba ao longo dos séculos”

Samba de Mesa Posta

Reportagem  por  Maria Lutterbach

Em poucas horas, o salão e a calçada do bar ficarão lotados de gente alegre dançando. Por enquanto, o barulho vem das tampas de panela e da faca ligeira sobre a tábua de carne. Quem orquestra a pequena equipe durante a feitura da feijoada no bar Você Vai se Quiser, na Praça Roosevelt, em São Paulo, é dona Maria Inês, a Tia Inês, ex-porta-bandeira da escola de samba paulistana Nenê de Vila Matilde. Com a ajuda dela, em cinco anos o caldeirão dobrou de tamanho e mais uma roda de samba se levantou em torno do prato que é preferência nacional.

Tia Inês e sua sobrinha, a cantora Graça, na cozinha do Você Vai se Quiser - foto: Revista Continuum

 

Quando a feijoada desliza do balcão pelas mesas, o bumbo soa no salão, onde a anfitriã é outra mulher da família.”Costumava sair da cozinha e correr para cantar no palco”, lembra a cantora Graça Braga, que hoje cuida só do microfone, mandando clássicos como o samba-enredo da Mangueira que rima acarajé com samba no pé. À base de muita cantoria e cerveja, a temperatura do lugar sobe e a celebração segue noite afora.

 

 

Esse clima de banquete ritmado que a Roosevelt experimenta todo sábado é ressonância de uma antiga conexão entre samba e comida. Nas senzalas, as festas de oferendas aos santos já anunciavam os primeiros passos do samba de roda, que serviria de base para outras variações do gênero - como o samba carioca. Uma das heranças das noites afro-baianas é o prazer em reunir família e amigos para saborear pratos suculentos em longas jornadas de batucada.

 

Professora dessa arte no Sudeste, a lendária Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), nascida em 1854, se mudou jovem da Bahia para o Rio de Janeiro. Na cidade, a quituteira continuou a dar as festas pelas quais havia sofrido perseguição policial em Salvador. As noites musicais oferecidas na casa dessa filha de Oxum, na Praça Onze, no Rio, renderam o primeiro samba gravado em disco, “Pelo Telefone”, assinado por Donga e Mauro de Almeida em 1917.

 

 

 

“Baixou fariseu na jogada”

O legado de Tia Ciata contagiou as gerações seguintes e, ainda hoje, seu espírito festivo paira sobre o Rio. Não deixa de ter o dedo da mestra baiana, por exemplo, o surgimento do restaurante Zicartola, na década de 1960. Durante anos, ele foi um templo do samba, embalado pelo bom papo de Cartola e pelo tempero de Dona Zica, mitológico no Morro da Mangueira. O lugar, na Rua da Carioca, centro do Rio, começou a perder o charme ao ser invadido por uma clientela que não acompanhava a cadência dos bambas. “Baixou fariseu na jogada. Em lugar do cheirinho gostoso das cocadas no repinicado do samba quente, havia perfume francês e uísque”, escreve o jornalista João Antônio Ferreira Filho no livro Zicartola - E que Tudo Mais Vá pro Inferno! (Scipione, 1991).

Zicartola - Fonte Almanaque Brasil - Matéria: Fogão + violão x Zicartola = Renascença do Samba

 

Lá pelos lados da Portela, a comilança em volta do pandeiro sempre foi liberada para todos e continua sendo atração na escola. Palmas para as pastoras da Velha Guarda, catequizadas pela saudosa Tia Vicentina - aquela do feijão divino cantado por Paulinho da Viola. No início feita com dinheiro do bolso das sambistas, a feijoada das tias Surica, Doca, Eunice e Áurea virou instituição.

 

Tia Surica na "Feijoada da Família Portelense" Foto de Divulgação: Luis Clever

 

“Eu também fazia peixada, galinha com quiabo e rabada, mas casa cheia mesmo era com feijoada”, conta Tia Surica, que criou depois a ala Feijão da Tia Vicentina, formada pela turma da cozinha. O festim no “cafofo da Tia Surica” cresceu tanto que foi assumido pela diretoria da Portela e hoje ocupa a quadra da agremiação. A iguaria continua sendo preparada pela cantora, mas agora é servida num almoço promovido no tradicional Teatro Rival, no fim de cada mês.

Outros episódios sobre as damas da Portela aparecem no livro Batuque na Cozinha, de Alexandre Medeiros (Casa da Palavra, 2004), e no curta homônimo lançado pela diretora Anna Azevedo no mesmo ano. “O samba nasceu e cresceu no quintal dessas tias. Ali, a gente passava a noite toda cozinhando e dançando”, diz Eunice no vídeo. Do fogão de Doca, que morreu neste ano, ficou a lembrança de sua concorrida sopa de ervilha. Depois de se separar do marido, a sambista passou a ganhar a vida realizando o popular pagode da Tia Doca, onde se criaram sambistas como Zeca Pagodinho.

 

 

Cantina adentro

Longe dos morros e debaixo da garoa, Adoniran Barbosa e seus comparsas também brilharam ao combinar samba e sabor. Com lugar cativo no extinto restaurante Parreirinha, em Santa Cecília, São Paulo, o compositor, descendente de italianos, fez parte da patota que se encontrava para beber, comer e fazer samba. Não muito longe dali, em outro reduto de artistas, no bar Mutamba, ele compôs “Torresmo à Milanesa”, em 1979.

 

 

Parceria com Carlinhos Vergueiro, a letra fala sobre a refeição levada na marmita pelos operários.”Chamava-se originalmente ‘Bife à Milanesa’, mas o Adoniran falou para trocar por ‘Torresmo à Milanesa’ porque era mais triste”, afirma o biógrafo do sambista, Celso Campos Jr., autor de Adoniran - Uma Biografia (Globo, 2004).

Mesmo tendo morado pouco tempo no Bixiga, Adoniran ficou associado ao bairro italiano por músicas como “Um Samba no Bixiga”, de 1956. Com os versos “Saiu uma baita duma briga/era só pizza que avoava junto com as brachola”, ele ambientou o samba nas cantinas, até hoje frequentadas por amantes do estilo. “Aqui em São Paulo, todo mundo sai do pagode e vai para a cantina comer espaguete, pizza e continuar tomando cerveja”, diz o compositor Paquera Miranda, presidente do Samba da Vela, reunião de sambistas realizada em Santo Amaro.

 

 

Para aguentar firme as horas de cantoria e remelexo, o público do Samba da Vela se abastece com uma sopa servida em diferentes versões a cada semana. Uma das receitas é o peixe-galo, que leva camarão seco ao azeite de dendê e um toque de coentro e cebolinha verde. Fundado há nove anos, o culto musical e gastronômico agrega cantores, músicos e simpatizantes em volta da vela acesa. Quando a chama finalmente se apaga e os pés pedem descanso, o ritual continua no paladar.

 

 

Se deu fome:

Receita de Feijoada

Bom apetite e não esquece de chamar o pessoal do samba.

Quem não chora não mama, 9 décadas do Bola Preta

O Celophane Cultural inicia seus trabalhos já em rítmo de Carnaval.

À 9 décadas nascia um dos mais importantes pilares do Carnaval Carioca O Cordão do Bola Preta, hoje Patrimônio Cultural do Povo do Rio de Janeiro. Neste ano O Bola dá a largada na recuperação de seu importante acervo. Reproduções de parte desse tesouro podem ser vistas em mostra ao ar livre, no Largo da Carioca durante o mês de Fevereiro.

“Quem não chora, não mama / Segura meu bem, a chupeta
Lugar quente é na cama / Ou então, no Bola Preta.
Vem pro Bola, meu bem / Com alegria infernal
Todos são de coração / Todos são de coração
Foliões do Carnaval / Sensacional!”

(Nelson Barbosa / Vicente Paiva – 1962)

Foto Divulgação: http://veja.abril.com.br/blog/passarela/avenida/o-museu-do-bola-preta/

Com 90 anos de história, o Cordão da Bola Preta é o mais antigo cordão carnavalesco em atividade no Rio de Janeiro. Se reuniu, pela primeira vez, no Revéillon de 1918. Hoje é patrônio cultural da cidade do Rio de Janeiro, e é ele que, ironicamente, surgiu como um protesto contra as autoridades, abre oficialmente o carnaval carioca.

Enquanto o Bola não desfila, o carnaval não começa!

Simples assim!!!

Estudiosos garantem que cordão (cuja primeira citação na imprensa aparece em 1886) surge como uma sátira popular, desabafo anônimo e coletivo contra o estabelecimento de fatos que desagradem ou prejudiquem o povo. No caso da origem, foram o vice-reinado português e depois o próprio D. João VI e sua corte, os alvos das brincadeiras dos cordões.
Saiba mais: Crônica de João do Rio sobre os Cordões – A Alma Encantadora das ruasSecretaria Municipal de Cultura, 1987. Biblioteca Carioca, 4 – Fonte:  Jangada Brasil

Dentro dessa filosofia, surgiu o que viria a ser o mais famoso deles, o Cordão da Bola Preta. Álvaro de Oliveira era o que se chamava na época — final dos anos 20 — de um folião de quatro costados. Soube pelos jornais que o chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal (o mesmo que com sua ordem contra os cassinos clandestinos, em 1916, dera origem ao samba Pelo telefone), baixara uma portaria determinando que “os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei.

Chico Brício, um dos fundadores do cordão, em comemoração aos 50 anos do Bola Preta. Fonte: Cifra Antiga

Foi o que bastou para que o corajoso K. Veirinha (apelido de Álvaro, também conhecido como Trinca Espinha) se dispusesse a topar a parada contra o chefão. Reuniu os amigos de sempre — Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros, a turma do chope —, nos bares da Galeria Cruzeiro, e planejaram a desobediência ao mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na rua do Passeio, e no reveillon de 1918, com um “maxixético e rebolativo baile”, como explicitava o convite, consumaram a provocação.”

O Cordão - Fonte Cifra Antiga

A Exposição

O  Bola ganha no mês carnavalesco uma homenagem em forma de exposição em pleno Largo da Carioca, próximo ao local das primeiras reuniões dos fundadores, a antiga Galeria Cruzeiro, que hoje é o Edifício Avenida Central.

 

Foto do Hotel Avenida sobre a Galeria Cruzeiro, primeira sede do Cordão do Bola preta fonte: Galeria Meu Bairro meu país Flickr http://www.flickr.com/photos/quadro/

 

Ao longo de fevereiro, alguns dos destaques do acervo histórico do Bola Preta estarão expostos no Largo da Carioca, em estrutura tubular montadas pela Mills (andaimes), ao ar livre, reproduzidos em plotagens de grande formato. No ambiente da mostra, montado em um espaço de 7,5m x 10m, com 5 m de altura, estarão expostas cerca de trinta dessas lembranças coloridas da glória quase secular do Cordão. Garimpadas no acervo, cujo processo de restauração está a pleno vapor, poderão ser vistas diversas   preciosidades entre imagens e documentos.

O Projeto tem patrocínio da Oi através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, do Rio de Janeiro e apoio da Mills.

A realização é da Arco Cultura, coordenada pela arquiteta Heloisa Alves, que também está iniciando a catalogação e digitalização do acervo da associação. “Estamos buscando recursos para dar continuidade a esse trabalho de recuperação e, assim, disponibilizar ao público as imagens e documentos que resgatam a memória não só do Bola, mas de boa parte do carnaval carioca”, diz a arquiteta.

Foto dos membros do CBP em seus uniformes de gala. Inclui Chico Brício e Caveirinha. 1930 - Fonte Acervo do Bola (divulgação)

“É uma alegria para todos nós que o Bola continue a ser reconhecido, com justiça, como um pilar da cultura carnavalesca carioca”, diz o presidente da instituição, Pedro Ernesto Araújo Marinho, um dos grandes responsáveis pela renovação do Bola nos últimos anos, tanto nas questões administrativas quanto na manutenção do espírito singular e carioquíssimo do Cordão. “O Cordão da Bola Preta é alegria, paz, samba, carnaval… E, acima de tudo, é Marca Positiva da Cidade Maravilhosa”, conclui Pedro Ernesto atual presidente do Bola.

A restauração do riquíssimo acervo guardado no  Bola Preta  abriu espaço para apresentar as origens do próprio Carnaval Carioca. Estarão à vista reportagens de jornais de época, programas, ingressos, liberação de material pelos censores (carimbos da policia nos estandartes eram necessários na Era Vargas, por exemplo); descrição dos rituais de iniciação dos novos sócios. Entre as imagens, uma série de ilustrações assinadas por Potoca (o nome verdadeiro do artista aparece em raras referencias como Palhares, mas a equipe está buscando quem possa dar maiores informações).

Ilustração para o livro de Ouro do CBP, feita pelo artista "Potoca", 1948 - Acervo do Bola Preta

O grupo de fundadores do Cordão (veja reportagem de época transcrita abaixo) era composto por vários remadores medalhistas do Botafogo (por isso a semelhança do escudo/marca), e seus integrantes, ao longo das décadas, trabalhadores, pais de família e alguns notáveis. Segundo o estatuto inicial do Cordão (original resgatado entre os documentos do acervo), os requisitos para que um folião fosse admitido eram:

Ilustração para o livro de Ouro do CBP, feita pelo artista "Potoca", 1945. Acervo do CBP

a) Ser bom copo: o candidato tinha que ser testado em uma chopada;
b) Ser alegre: era condição sine-qua-non, tinha que ser realmente carnavalesco;
c) Ser maior de 21 anos;
d) Apresentar provas de que trabalhava; isto era absolutamente necessário, pois todos os integrantes fundadores eram empregados, comerciantes ou industriais, e não se admitiam vagabundos no seio do Cordão.

Reprodução (mantida a grafia original) de um texto publicado pelo jornal “A Pátria” em 23 de Janeiro de 1930. Obs.: Chico Brício era parceiro de “Caveirinha”, e um dos fundadores do Cordão da Bola Preta.

_Então ouve, para melhor contares: A Bola Preta nasceu de uma scena amorosa entre uma colombina de branco e preto, isto é, de branco e de bolas pretas, com um rapaz de sport, aliás remador do C. R. Botafogo e um dos meus melhores amigos. Esse rapaz era o “Caveirinha”. A colombina é que não conheci. Sei, porém, que a scena ocorreu na Gloria, durante o Carnaval de 1919, quando ambos esses personagens, na expansão natural daquelle dia conseguiram falar-se. “Caveirinha” enamorou-se da colombina. E mergulhado nesse namoro sahiram ambos em colloquio, no meio da multidão. Isto foi visto e seguido por um primo de “Caveirinha”, que os acompanhou de longe. Mas houve um instante que o rapaz perdeu de vista os namorados, e, quando o “Caveirinha” reapareceu foi para indagar:

_Onde está a Colombina?
_Estava comtigo, respondeu o primo surpreso.
_A miseravel fugiu!…
_Como?
_Depois de ter-me dado…
_Um tabefe?
_Não.
_Então o que deu ella para fugir assim!
_Um beijo.
_E depois?
_Desapareceu.

E os dois ficaram um momento absortos. Afinal, “Caveirinha” na esperança de reencontrar a misteriosa colombina tomou uma iniciativa:

E os dois sahiram a procurar a endiabrada mascarada, soltando de vez em quando para se orientarem esta phrase: Tem “Bola Preta”?

Excusado é dizer que a colombina não apareceu mais até hoje. Entretanto ficou no espirito do “Caveirinha” a lembrança indelevel da “Bola Preta”.

E o diabo do avatar da “Bola Preta” não sahiu nunca mais do seu pensamento.

Assim é que no ultimo dia desse Carnaval, “Caveirinha” entrando em uma bagatella que estava installada num chopp que existia na Gloria onde entrou para espantar suas maguas, deu com uma bola preta. Sempre a bola preta! Ora, nessa mesma noite o bhoemio e incorrigível carnavalesco deliberou de vez prender a bola preta à sua vida foliona e com seus companheiros dessa ocasião, que eram o Fala Baixo, este que aqui está – o Brandão velhinho e o seu “Pendura” fundarem o hoje famoso e tradicional “Cordão da Bola Preta”.

camiseta oficial do carnaval 2009 comemorativa aos 90 anos, assinada por Miguel Paiva

Confiram as fotos da Exposição no ultimo dia 10 de Fev inauguração do evento:

 

A tradicional banda do Bola Preta pára o Largo da Carioca para fazer a abertura da exposição. Ao fundo a estrutura montada como suporte das fotos e curiosidades sobre as 9 décads do Bola Brata.

 

Interno da Exposição no coração do Rio de Janeiro.

 

muitos interessados páram para ler o conteúdo da exposição, se identificam, se emocionam com a história que se mistura á história do Carnaval carioca.

 

A Primeira mulher a ser rainha do Bola, pois antes as rainhas eram homens travestidos, Maura Possas orgulhosa ao lado de Heloisa Alves Produtora da Arco que montou a Exposição.

 

CORDÃO DA BOLA PRETA: nove décadas animando o Carnaval Carioca

Realização: Arco Cultura
Coordenação geral e projeto arquitetônico: Heloisa Alves
Coordenação da catalogação e digitalização do acervo: Elke Gibson
Produção geral: Sergio Murilo Carvalho
Museólogo responsável: Claudio Lacerda
Reprodução digital do acervo: Paulo Rodrigues
Programação visual: Hoton Ventura

De 2 de fevereiro a 29 de fevereiro de 2012
Largo da Carioca
Entrada franca

INAUGURAÇÃO: 1º de fevereiro de 2012, às 18h, com apresentação da Banda do Cordão da Bola Preta

Fontes:

Cifra Antiga

Ruas e Praças

Acessoria de Imprensa da Exposição: CORDÃO DA BOLA PRETA: nove décadas animando o Carnaval Carioca

Saiba Mais:

História do Samba – Editora Globo.

Os números de 2011 para celebrar 2012 com toda força.

 

 

Pra começar 2012, os  amigos WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 sobre o blog Celophane Cultural, que gostaria de compartilhar e celebrar com voces.

 

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 41.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 15 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Em 2011 foram publicados 36 novos artigos, aumentando o arquivo total para 62 artigos. Foram carregadas 341 imagens, ocupando um total de 115mb. É cerca de 7 imagens por semana.

O dia com mais tráfego foi 27 de setembro, com 635 visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Cosme Damião ou Ibêji… salvem as crianças..

Estes foram os artigos mais visitados em 2011.

Os sites que mais o mencionaram em 2011 foram:

Alguns visitantes vieram à procura, sobretudo por Monteiro Lobato, Xilogravura, Raloin e literatura de cordel.

 

Meu muito obrigado a voces que me leram em 2011 mostrando que o esforço que faço não é em vão. que venha muita Cultura Popular neste ano que entra.

Clique aqui para ver o relatório completo

 

Jefferson Duarte

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