Quem não chora não mama, 9 décadas do Bola Preta

O Celophane Cultural inicia seus trabalhos já em rítmo de Carnaval.

À 9 décadas nascia um dos mais importantes pilares do Carnaval Carioca O Cordão do Bola Preta, hoje Patrimônio Cultural do Povo do Rio de Janeiro. Neste ano O Bola dá a largada na recuperação de seu importante acervo. Reproduções de parte desse tesouro podem ser vistas em mostra ao ar livre, no Largo da Carioca durante o mês de Fevereiro.

“Quem não chora, não mama / Segura meu bem, a chupeta
Lugar quente é na cama / Ou então, no Bola Preta.
Vem pro Bola, meu bem / Com alegria infernal
Todos são de coração / Todos são de coração
Foliões do Carnaval / Sensacional!”

(Nelson Barbosa / Vicente Paiva – 1962)

Com 90 anos de história, o Cordão da Bola Preta é o mais antigo cordão carnavalesco em atividade no Rio de Janeiro. Se reuniu, pela primeira vez, no Revéillon de 1918. Hoje é patrônio cultural da cidade do Rio de Janeiro, e é ele que, ironicamente, surgiu como um protesto contra as autoridades, abre oficialmente o carnaval carioca.

Enquanto o Bola não desfila, o carnaval não começa!

Simples assim!!!

Estudiosos garantem que cordão (cuja primeira citação na imprensa aparece em 1886) surge como uma sátira popular, desabafo anônimo e coletivo contra o estabelecimento de fatos que desagradem ou prejudiquem o povo. No caso da origem, foram o vice-reinado português e depois o próprio D. João VI e sua corte, os alvos das brincadeiras dos cordões.
Saiba mais: Crônica de João do Rio sobre os Cordões – A Alma Encantadora das ruasSecretaria Municipal de Cultura, 1987. Biblioteca Carioca, 4 – Fonte:  Jangada Brasil

Dentro dessa filosofia, surgiu o que viria a ser o mais famoso deles, o Cordão da Bola Preta. Álvaro de Oliveira era o que se chamava na época — final dos anos 20 — de um folião de quatro costados. Soube pelos jornais que o chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal (o mesmo que com sua ordem contra os cassinos clandestinos, em 1916, dera origem ao samba Pelo telefone), baixara uma portaria determinando que “os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei.

Chico Brício, um dos fundadores do cordão, em comemoração aos 50 anos do Bola Preta. Fonte: Cifra Antiga

Foi o que bastou para que o corajoso K. Veirinha (apelido de Álvaro, também conhecido como Trinca Espinha) se dispusesse a topar a parada contra o chefão. Reuniu os amigos de sempre — Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros, a turma do chope —, nos bares da Galeria Cruzeiro, e planejaram a desobediência ao mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na rua do Passeio, e no reveillon de 1918, com um “maxixético e rebolativo baile”, como explicitava o convite, consumaram a provocação.”

O Cordão - Fonte Cifra Antiga

A Exposição

O  Bola ganha no mês carnavalesco uma homenagem em forma de exposição em pleno Largo da Carioca, próximo ao local das primeiras reuniões dos fundadores, a antiga Galeria Cruzeiro, que hoje é o Edifício Avenida Central.

 

Foto do Hotel Avenida sobre a Galeria Cruzeiro, primeira sede do Cordão do Bola preta fonte: Galeria Meu Bairro meu país Flickr http://www.flickr.com/photos/quadro/

 

Ao longo de fevereiro, alguns dos destaques do acervo histórico do Bola Preta estarão expostos no Largo da Carioca, em estrutura tubular montadas pela Mills (andaimes), ao ar livre, reproduzidos em plotagens de grande formato. No ambiente da mostra, montado em um espaço de 7,5m x 10m, com 5 m de altura, estarão expostas cerca de trinta dessas lembranças coloridas da glória quase secular do Cordão. Garimpadas no acervo, cujo processo de restauração está a pleno vapor, poderão ser vistas diversas   preciosidades entre imagens e documentos.

O Projeto tem patrocínio da Oi através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, do Rio de Janeiro e apoio da Mills.

A realização é da Arco Cultura, coordenada pela arquiteta Heloisa Alves, que também está iniciando a catalogação e digitalização do acervo da associação. “Estamos buscando recursos para dar continuidade a esse trabalho de recuperação e, assim, disponibilizar ao público as imagens e documentos que resgatam a memória não só do Bola, mas de boa parte do carnaval carioca”, diz a arquiteta.

Foto dos membros do CBP em seus uniformes de gala. Inclui Chico Brício e Caveirinha. 1930 - Fonte Acervo do Bola (divulgação)

“É uma alegria para todos nós que o Bola continue a ser reconhecido, com justiça, como um pilar da cultura carnavalesca carioca”, diz o presidente da instituição, Pedro Ernesto Araújo Marinho, um dos grandes responsáveis pela renovação do Bola nos últimos anos, tanto nas questões administrativas quanto na manutenção do espírito singular e carioquíssimo do Cordão. “O Cordão da Bola Preta é alegria, paz, samba, carnaval… E, acima de tudo, é Marca Positiva da Cidade Maravilhosa”, conclui Pedro Ernesto atual presidente do Bola.

A restauração do riquíssimo acervo guardado no  Bola Preta  abriu espaço para apresentar as origens do próprio Carnaval Carioca. Estarão à vista reportagens de jornais de época, programas, ingressos, liberação de material pelos censores (carimbos da policia nos estandartes eram necessários na Era Vargas, por exemplo); descrição dos rituais de iniciação dos novos sócios. Entre as imagens, uma série de ilustrações assinadas por Potoca (o nome verdadeiro do artista aparece em raras referencias como Palhares, mas a equipe está buscando quem possa dar maiores informações).

Ilustração para o livro de Ouro do CBP, feita pelo artista "Potoca", 1948 - Acervo do Bola Preta

O grupo de fundadores do Cordão (veja reportagem de época transcrita abaixo) era composto por vários remadores medalhistas do Botafogo (por isso a semelhança do escudo/marca), e seus integrantes, ao longo das décadas, trabalhadores, pais de família e alguns notáveis. Segundo o estatuto inicial do Cordão (original resgatado entre os documentos do acervo), os requisitos para que um folião fosse admitido eram:

Ilustração para o livro de Ouro do CBP, feita pelo artista "Potoca", 1945. Acervo do CBP

a) Ser bom copo: o candidato tinha que ser testado em uma chopada;
b) Ser alegre: era condição sine-qua-non, tinha que ser realmente carnavalesco;
c) Ser maior de 21 anos;
d) Apresentar provas de que trabalhava; isto era absolutamente necessário, pois todos os integrantes fundadores eram empregados, comerciantes ou industriais, e não se admitiam vagabundos no seio do Cordão.

Reprodução (mantida a grafia original) de um texto publicado pelo jornal “A Pátria” em 23 de Janeiro de 1930. Obs.: Chico Brício era parceiro de “Caveirinha”, e um dos fundadores do Cordão da Bola Preta.

_Então ouve, para melhor contares: A Bola Preta nasceu de uma scena amorosa entre uma colombina de branco e preto, isto é, de branco e de bolas pretas, com um rapaz de sport, aliás remador do C. R. Botafogo e um dos meus melhores amigos. Esse rapaz era o “Caveirinha”. A colombina é que não conheci. Sei, porém, que a scena ocorreu na Gloria, durante o Carnaval de 1919, quando ambos esses personagens, na expansão natural daquelle dia conseguiram falar-se. “Caveirinha” enamorou-se da colombina. E mergulhado nesse namoro sahiram ambos em colloquio, no meio da multidão. Isto foi visto e seguido por um primo de “Caveirinha”, que os acompanhou de longe. Mas houve um instante que o rapaz perdeu de vista os namorados, e, quando o “Caveirinha” reapareceu foi para indagar:

_Onde está a Colombina?
_Estava comtigo, respondeu o primo surpreso.
_A miseravel fugiu!…
_Como?
_Depois de ter-me dado…
_Um tabefe?
_Não.
_Então o que deu ella para fugir assim!
_Um beijo.
_E depois?
_Desapareceu.

E os dois ficaram um momento absortos. Afinal, “Caveirinha” na esperança de reencontrar a misteriosa colombina tomou uma iniciativa:

E os dois sahiram a procurar a endiabrada mascarada, soltando de vez em quando para se orientarem esta phrase: Tem “Bola Preta”?

Excusado é dizer que a colombina não apareceu mais até hoje. Entretanto ficou no espirito do “Caveirinha” a lembrança indelevel da “Bola Preta”.

E o diabo do avatar da “Bola Preta” não sahiu nunca mais do seu pensamento.

Assim é que no ultimo dia desse Carnaval, “Caveirinha” entrando em uma bagatella que estava installada num chopp que existia na Gloria onde entrou para espantar suas maguas, deu com uma bola preta. Sempre a bola preta! Ora, nessa mesma noite o bhoemio e incorrigível carnavalesco deliberou de vez prender a bola preta à sua vida foliona e com seus companheiros dessa ocasião, que eram o Fala Baixo, este que aqui está – o Brandão velhinho e o seu “Pendura” fundarem o hoje famoso e tradicional “Cordão da Bola Preta”.

camiseta oficial do carnaval 2009 comemorativa aos 90 anos, assinada por Miguel Paiva

Confiram as fotos da Exposição no ultimo dia 10 de Fev inauguração do evento:

 

A tradicional banda do Bola Preta pára o Largo da Carioca para fazer a abertura da exposição. Ao fundo a estrutura montada como suporte das fotos e curiosidades sobre as 9 décads do Bola Brata.

 

Interno da Exposição no coração do Rio de Janeiro.

 

muitos interessados páram para ler o conteúdo da exposição, se identificam, se emocionam com a história que se mistura á história do Carnaval carioca.

 

A Primeira mulher a ser rainha do Bola, pois antes as rainhas eram homens travestidos, Maura Possas orgulhosa ao lado de Heloisa Alves Produtora da Arco que montou a Exposição.

 

CORDÃO DA BOLA PRETA: nove décadas animando o Carnaval Carioca

Realização: Arco Cultura
Coordenação geral e projeto arquitetônico: Heloisa Alves
Coordenação da catalogação e digitalização do acervo: Elke Gibson
Produção geral: Sergio Murilo Carvalho
Museólogo responsável: Claudio Lacerda
Reprodução digital do acervo: Paulo Rodrigues
Programação visual: Hoton Ventura

De 2 de fevereiro a 29 de fevereiro de 2012
Largo da Carioca
Entrada franca

INAUGURAÇÃO: 1º de fevereiro de 2012, às 18h, com apresentação da Banda do Cordão da Bola Preta

Fontes:

Cifra Antiga

Ruas e Praças

Acessoria de Imprensa da Exposição: CORDÃO DA BOLA PRETA: nove décadas animando o Carnaval Carioca

Saiba Mais:

História do Samba – Editora Globo.

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