A História do queijo “proibido” de Minas.

“Ao homem contemporâneo, a convivência com vestígios do passado costuma gerar conforto identitário, segurança por saber-se parte de uma construção antiga que lhe sustenta e justifica costumes e ações. Quando a construção passada é permanência e tradição vivas e arraigadas na dinâmica das construções culturais, esse conforto se transforma em orgulho identitário e supera o temor pelo esquecimento que geraria sentimento de perda. Modos de fazer tradicionais se enquadram nessa categoria de permanências que sinalizam ao homem moderno sentimentos de orgulho pelos saberes construídos em seu passado. Aos mineiros contemporâneos os modos de fazer artesanais de queijo a partir do leite cru, tradição persistente e em dinâmica transformação em sua cultura, identifica seus modos costumeiros e dá conforto à suas vidas. Além disso, embasa a sobrevivência de numerosas famílias e fundamenta a economia de municípios e de regiões”.

José Newton Coelho Meneses

O Celophane Cultural pegando carona no lançamento do documentário: “O Mineiro e o Queijo” de Helvécio Ratton, traz este universo, a discussão política e a tradição reconhecida como patrimônio Imaterial do nosso delicioso queijo mineiro.

A INVASÃO DE VACAS E BOIS NO SOLO BRASILEIRO?

Não, as primeiras cabeças de gado bovino chegaram ao Brasil em 1534, por iniciativa de Ana Pimentel de Souza, a esposa de Martim Afonso de Souza, que mandou vir do arquipélago de Cabo Verde, algumas dezenas de cabeças de gado para a capitania de São Vicente. Estudiosos especulam que alguns destes animais eram mestiços com sangue Zebu. Também vieram alguns equinos e poucas cabeças de suínos.

"Boi Barrosão" - Ilustração de Leopoldo Costa

No século XVIII, aventureiros portugueses em busca de ouro levaram para a região das minas a arte do queijo. O queijo era uma forma de conservar o leite e, à medida que estes exploradores percorriam novas áreas, a produção do queijo artesanal se espalhava por Minas Gerais, adaptando-se bem aos climas serranos. Hoje, o queijo minas é produzido por 30 mil famílias e considerado patrimônio
cultural do Brasil.

Livro: "500 anos de leite no Brasil" de João Castanho Dias - clique na imagem para saber mais.

DEBRET E O QUEIJO

Jean-Baptiste Debret chegou ao Brasil em 1816, para ser o pintor da família real e foi um dos primeiros viajantes a notar que o país possuía um produto diferente, consumido ao final das refeições, o queijo-de-minas.

J. B. DEBRET. Um jantar brasileiro. 1827. Museus Castro Maya – IPHAN/MinC – MEA 0199

Sua história remonta à chegada dos portugueses a Minas Gerais, no século XVIII, depois da descoberta do ouro. Como os homens precisavam de um alimento que durasse todo o dia, uma antiga técnica portuguesa de queijo coalhado, feito de leite fresco, foi adaptada às condições locais.

A PROIBIÇÃO

Porém, em função de uma lei federal de 1952, de inspiração norte-americana, o queijo minas artesanal enfrenta um grave obstáculo: sua venda é proibida paraoutros estados brasileiros, o que provoca impactos econômicos e sociais significativos sobre os pequenos produtores.

Filmado nas belas regiões do Serro, serra da Canastra e Alto Paranaíba, O Mineiro e o Queijo traz a palavra de produtores, comerciantes, cientistas e atravessadores, traça um amplo painel sobre o queijo minas e investiga a estranha situação de um produto tradicionalíssimo, mas barrado em seu próprio país.


PATRIMÔNIO CULTURAL

Em 2008, o queijo minas virou patrimônio cultural imaterial brasileiro. Foi este reconhecimento que disparou o processo criativo e de pesquisas que levaria, três anos depois, ao documentário O Mineiro e o Queijo, do cineasta Helvécio Ratton. “O queijo sempre fez parte da minha vida”, explica o diretor. “Numa família como a minha, encabeçada por duas pessoas nascidas no interior de Minas, a presença do queijo era uma constante dentro de casa.” Assim, o tombamento do queijo artesanal naturalmente reavivou em Ratton a curiosidade sobre a história e a tradição desta iguaria típica de seu estado.

O QUEIJO FORA DA LEI

Uma das primeiras providências de Ratton e Marcellini foi o estudo do dossiê preparado para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) e a realização de reuniões com os técnicos da instituição. “Logo percebemos que a questão era muito mais complexa do que havíamos imaginado”, lembra Helvécio.

“Isso me fez mudar a linha que havia imaginado para o filme: inicialmente, iria numa linha em busca da tradição, mas gradualmente passei a me preocupar mais com o impacto da legislação federal sobre o pequeno produtor. Fui da História ao enfoque social”.

O cineasta se refere a uma lei assinada por Getúlio Vargas em 1952 que, com a intenção de regulamentar a produção de queijos, exige 60 dias de maturação para os queijos feitos de leite cru. Na prática, a lei proibe a comercialização dos queijos artesanais, transformando-os em produtos ilegais.

Cartaz do filme: O Mineiro e o Queijo

“Os norte-americanos querem suprimir dos mercados internacionais o queijo feito do leite cru e a lei brasileira foi claramente influenciada por eles”, explica Ratton. “Os americanos chegaram a entrar na OMS com uma ação para impedir a França de vender seus queijos do leite cru em outros países”.

A lei carece de bases científicas, já que desconsidera o clima tropical e as bactérias aqui existentes – e, assim, os 60 dias exigidos para a maturação do queijo antes da comercialização não são necessários no Brasil. “O curioso é que importamos queijos artesanais produzidos nas mesmas condições ou em condições piores de países europeus, já que temos uma cultura de higiene claramente melhor do que a deles”, pondera o historiador José Newton Meneses, responsável pelo dossiê que embasaria o tombamento do queijo artesanal mineiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e cujo depoimento faz parte de O Mineiro e o Queijo.

"O MIneiro e o Queijo" foto divulgação de Ricardo Lima

“A Universidade Federal de Viçosa tem uma série de pesquisas que mostram o nosso cuidado com o queijo e que comprovam que este é próprio para consumo já com 15-20 dias”, completa o produtor Joãozinho, outra figura importante no documentário. Esta pesquisa, aliás, foi a base para a legislação estadual de Minas, que permite a comercialização do queijo artesanal com 21 dias de maturação.

As diferenças entre as legislações Federal e Estadual é que impedem a comercialização do queijo minas artesanal fora do estado. Para estabelecer um amplo painel acerca da situação, Ratton percebeu que precisaria discutir o tema não apenas com produtores, mas também com comerciantes, consumidores, técnicos, professores e até mesmo com atravessadores. E esta decisão, claro, implicou em ampliar radicalmente as pesquisas e o enfoque do documentário.

O MINEIRO E O QUEIJO - O produtor de queijo Zé Mário em São Roque de Minas, região da Canastra Foto de Rusty Marcellini

Processo muitas vezes solitário que implica num trabalho diário que leva o produtor a permanecer cerca de quatro a cinco horas profundamente concentrado na tarefa, o fazer do queijo artesanal é uma tarefa de delicadeza e concentração. “Se o sujeito não estiver bem consigo mesmo, o queijo não fica bom. Eles mesmos dizem que isso faz a diferença”. Assim, o diretor e sua equipe registraram todas as etapas da produção do queijo artesanal nas fazendas, voltando a captá-las em uma fábrica de laticínios para estabelecer a natureza similar do processo. “Na indústria, as etapas são exatamente as mesmas, mas numa escala bem maior e em outro ritmo. E o espectador consegue perceber como os processos são idênticos, mas a relação com o queijo é outra ”.

O MINEIRO E O QUEIJO - O produtor de queijo Luciano apresenta o queijo minas canastra real em Medeiros, região da Canastra Foto de Gilberto Otero

Por outro lado, Ratton se esforçou em não pintar os laticínios como “vilões”, como antagonistas dos produtores artesanais. “É apenas uma questão de diferença; cada um tem sua preferência”.

“A Europa inteira faz queijo de leite cru e vende para o mundo. Nossos técnicossão muito retrógrados, não têm interesse em regulamentar a produção agroartesanal.Nem o governo se entende, aliás; o Ministério da Cultura trombou defrente com o da Agricultura ao tombar nosso queijo como patrimônio ao mesmotempo em que este último nos proibe de circular pelo país”.

“O Estado precisa reconhecer o valor de identidade do queijo artesanal”, defende o historiador José Meneses. “A legislação se preocupa com a pasteurização, mas está defasada. Hoje o controle é feito no rebanho, através da vacinação contra brucelose, por exemplo, que diminui significativamente o risco de contaminação do queijo. No mundo inteiro é assim, mas aqui o Estado parece não
querer gastar com fiscalização e prefere proibir. Mas como proibir algo que dá identidade cultural a um estado?”.

Responsável por um dos documentários mais importantes no histórico do movimento anti-manicomial (Em Nome da Razão), Helvécio não é um estranho ao conceito de Cinema como gatilho de movimentos sociais e políticos. “Espero que o filme provoque uma bela polêmica, que as pessoas percebam o que está acontecendo não só com o queijo artesanal, mas com outros produtos da agricultura familiar”, confessa. “Nós vamos, inclusive, fazer uma sessão na Assembleia Legislativa de Minas Gerais com debate e presença de produtores logo depois do lançamento do longa nos cinemas”.

O diretor - divulgação - foto: Ricardo Lima

Fontes:

Site Oficial do filme “O MIneiro e o Queijo”

Introdução do gado no Brasil

PDF – Queijo Artesanal de Minas- Patrimônio Cultural do Brasil – Dossiê Interpretativo

Revista de História

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2 Respostas para “A História do queijo “proibido” de Minas.

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