O Banho de São João em Corumbá

O Charmoso casario no Porto Geral de Corumbá Mato Grosso do Sul - Foto: Anderson Gallo

O Celophane Cultural vai a Mato Grosso do Sul na cidade de Corumbá visitar uma tradicionalissima festa Junina.

Fundada em 1778, Corumbá concentra uma das maiores comunidades do candomblé e umbanda do país. O Rio Paraguai que passa à margem direita da cidade inspira e atrai todas as tendências religiosas. Uma das manifestações locais de forte apelo popular é o sacro-profano Banho de São João nas águas do rio, à meia noite, na passagem de 23 para 24 de Junho.

O banho de São João teve origem na Europa com o costume portugûes do banho de rio obrigatório no dia do santo a partir do século 14. Em Corumbá, conforme relato de historiadores, a tradição nasceu com os árabes por volta de 1882. De acordo com o ritual a imagem do santo é levada em procissão até o Porto Geral, uma das referências históricas da cidade, para o banho que irá renovar as forças de São João e abençoar tudo o que se relaciona com as águas e com o homem.

Outro Olhar: São João de Corumbá

Matéria da Revista eletrônica  Poranduba.

Na noite de quinta-feira, o porto geral estava colorido. Mais de 15 mil pessoas circulando pela orla e enfrentando fila para passar por baixo do nador, por uma afirmação ou pedido de casamento. Mas muitos andores desciam em silência, como se o compromisso fosse unicamente chegar à beira do rio para cumprir o ritual. Os andores acompanhados de banda própria eram os mais animados e característicos.

Aqueles acostumados às grandes festas juninas — como as de Pernambuco ou da Paraíba — podem ter, a primeira vista, uma visão errada do Arraial do Banho de São João, em Corumbá/MS.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Corumbá

Mesmo com as 40 mil pessoas que estiveram no Porto Geral na noite do dia 23 para 24 de julho, dividindo sua atenção entre a descida dos andores, as barraquinhas de comida e as atrações musicais, é incorreto enxergar o evento como uma grande festa que une a cidade inteira. Mais do que isso, ele é uma soma de dezenas de pequenas e médias festas, que tem seu momento de encontro na ladeira Cunha e Cruz em direção à prainha do Rio Paraguai.

O barco andor - fonte REvista Poranduba

Um andor pode ser acompanhado por uma multidão de mais de 300 pessoas, descer ao som de uma banda própria e até ser iluminado por velas ou lanternas de papel. No entanto, também pode descer silencioso, quase solitário, embalado pela cantoria em voz baixa de um casal de fiéis, em sua singela demonstração de fé ao santo. Para contagiar mesmo os pequenos no clima da festa, a organização do evento apresentou uma solução: não importa o tamanho do cortejo, cada andor que desce a ladeira é recebido pelas três bandas de “cururuzeiros” – músicos de sopro — espalhadas pela descida, que entoam incessantemente, embora de maneira desencontrada, a mesma melodia.

Ladeira para o Porto Geral de Corumbá, MS, com andor de São João. Foto: Walfrito Tomas

Se São João soubesse
Que hoje era seu dia
Descia do céu a terra
Com prazer e alegria

Andor de São João. Foto: Walfrito Tomas

Acompanhando os músicos, um vento frio também soprou durante a festa inteira, e conforme a noite avançava os homens pouco a pouco se rendiam. Espertos, os vendedores negociavam e levavam até os músicos uma ou outra bebida para esquentar o espírito. “Ih, lá vem o andor! Bebe depois, que ele quer filmar”, ouvi mais de uma vez, enquanto também me cansava subindo e descendo a ladeira atrás dos andores com cada vez menos frequência – até encerrar o expediente pouco depois das 23h e, finalmente, ir visitar uma das inúmeras barraquinhas de comida ao longo do Porto Geral.

Andor de São João, tradicional festa do Arraial do Banho de São João, em Corumbá (MS) Foto:Anderson Gallo

“Aquilo lá virou puro comércio”, comenta o mototaxista que me levou para a festa. Dizendo-se corumbaense nativo, ele relembra o costume que acompanhou desde criança. “Antigamente o Arraial era para o povo, tinha comida para todo mundo e era tudo distribuído. Hoje, você paga por tudo!”, reclama.

Assim como ele, para muitos, a festa já foi institucionalizada – e capitalizada – demais. É a opinião do professor de história da UFMS de Corumbá, Marco Aurélio Machado, que afirma – no caso – falar não como pesquisador, mas como um festeiro que carrega o andor há mais de 18 anos. “Para mim, não é a festa de São João que representa a cultura popular corumbaense, mas sim a de São Pedro, no dia 29”, propõe. Na data, a população dos bairros ribeirinhos enchem os bares das comunidades para comer, beber e dançar. Ainda que integre o calendário de eventos de Corumbá, de acordo com o professor, essa é uma manifestação que ainda não teria sido tomada pelo poder público.

Voltando a vaca fria, atualmente o caráter comunitário do Arraial de São João é restrito aos bairros, nas festas na casa de cada um dos festeiros. Depois da descida do andor, por exemplo, Epifânia Bastos – a Dona Preta – vai oferecer um churrasco para todos os seus convidados. “Eu só não dou a bebida, mas quem quiser leva e a gente festa a noite inteira”, relata. Já na casa de Alfredo Ferraz, o jantar será algumas panelas de arroz carreteiro e cachorro quente para as crianças.

“Agora nós vamos rezar. Vamos cantar parabéns para São João e só depois comer”, pontua Alfredo com tranquilidade. “Essa mesa é para os adultos e a de trás é para as crianças. O que sobrar vocês podem levar para casa. É de vocês, e eu não faço questão”, finaliza. Palavras de quem, desde bastante criança, já testemunhou brigas, fofocas e discussões o suficiente para ficar vacinado. Mais do que isso, palavras também de quem conhece sua comunidade: quinze minutos depois, não havia migalha sobre a mesa, e as pessoas enchiam potes e sacolas sem qualquer cerimônia.

Alfredo e Epifânia são festeiros: organizadores da Festa de São João em suas respectivas comunidades. Ainda que não se conheçam, suas vidas caminham em situações convergentes. Ela, com uma bagagem de 63 anos preparando o santo para o batismo, procura em uma das netas – ainda sem sucesso – sua sucessora na organização da festa. Ele, por sua vez, aos 22 anos, acaba de assumir a tradição que iniciou com seu avô, e se depara com todas as dificuldades de organizar o evento para a sua comunidade.

– E vale a pena Alfredo?
“Com certeza”, responde, sem nem chegar a pensar. “Primeiro pelo Santo, que é muito milagroso, que sempre advoga pelas nossas causas. Segundo por que eu fico feliz vendo o povo se divertindo, a fé nas crianças e nos adultos. Só isso compensa tudo o que a gente faz”, finaliza.

Se a energia do jovem festeiro durar tanto quanto vem durando a de Dona Preta, o Banho de São João em Corumbá estará em boas mãos. Pelo menos até a próxima geração.

Fontes:

Revista eletronica Poranduba  Autor da Matéria: Andriolli Costa

São João de Fé e Mudanças – Correio do Estado – Por Silvio Andrade

Flickr com as fotos de  Walfrido Tomas

Flickr com as fotos de Anderson Gallo

Texto inicial e Fotos por Alexandre Cassiano

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