A loucura esculpida na madeira

O Celophane Cultural convida você a conhecer o fantástico universo de um dos maiores artistas populares brasileiros do século XX, um mestre de visão única que mudou a vida de pessoas ao seu redor, apenas por insistir em fazer aquilo que amava e sentia.

Esculpir a madeira

Esculpir em madeira remonta a uma das técnicas mais antigas do homem. Foi esculpindo que a humanidade criou lanças, varas, rodas, abrigo e arte, da pré-história aos dias de hoje.

E foi esculpindo cachimbos cada vez maiores, até que fumar neles tornou-se supérfluo e impossível, Boaventura, um barbeiro de Cachoeira na Bahia, encontrou sua própria arte.

“Enquanto tiver madeira no mundo eu não páro de trabalhar. Não me falta trabalho. (…) Tem dia que trabalho tanto que meu sangue parece que virou água. De noite nem chega sono. Uma noite dessa, eu tive uma inspiração: via o povo naquele século, tudo nu. Jaá mandei cortar a prancha de madeira. Estou louco pra acabar esse Cristo e começar esta outra peça.”

Boaventura, se aventurando, tornou-se o grande Mestre de sua cidade, que já era um marco cultural no Recôncavo Baiano, e graças a este filho, tornou-se também uma terra de escultores, e um filão para admiradores.

Autodidata, Boaventura, mais conhecido pelo nome artístico de Louco, criou uma estética peculiar, unindo elementos que fazem parte da história artística, cultural e religiosa do Brasil e do mundo, sem educação formal em arte e em uma pequena cidade nordestina.

“Quando estou fazendo uma peça não consigo começar outra. Fico nela até acabar. Não sei repetir nenhum trabalho, mesmo que seja com uma foto na frente. Eu sigo mais a madeira. Cada dia é uma coisa nova na mente e tudo tem saída. Não fiz um trabalho ainda pra demorar. As primeiras caras de pessoas que eu fiz foram nos cachimbinhos de madeira. Eu vendia tudo. Tinha aqui um senhor de São Paulo que me animava muito. Quando ele foi embora, eu fique fazendo umas esculturas maiores e botando na janela. O povo passava e dizia que era trabalho de louco.”

Boaventuranças: um elogio da loucura – A Exposição

É o Título da Exposição em cartaz no SESC Casa Amarela do Recife, com cerca de 20 obras de Louco e seus discípulos/familiares: Maluco Filho, Doidão, Bolão. A Mostra reforça o desenvolvimento da estética e da tradição criada e das tradições recriadas por este artista visionário.

É visando mostrar esta incrível amálgama de estilos, que foram tão representativos na arte e cultura brasileira, através da fantasia de um mestre, que a exposição abordará a mente daquele que, de tão lúcido, se tornou Louco.

Acervo MAP

“Todas elas tem nome: ‘Cabeça de Oxalá’, ‘São Lázaro’, ‘Adoração do Candomblé’, ‘Adoração de iansã e Oxalá’, ‘Mãe e Filho’, ‘Oxalá de Braços Abertos’, ‘Senhor do Bomfim’, ‘Iemanjá’, ‘Santa Ceia’, ‘Adoração do Cavaleiro da Mata’, ‘Adoração de uma Carranca’, ‘Anja das Trevas’, ‘Ogan tocando Atabaque’…” 

Os Anjos e Orixás – loucura barroca:

Os metais preciosos e a cana-de-açúcar traziam dinheiro da Europa para o Brasil, e juntamente com o dinheiro, a arte européia desaguava em terras tupiniquins. O Barroco, estilo predominante da Europa seiscentista, chegava com um século de atraso, mas com uma força avassaladora, especialmente no Nordeste onde a arquitetura e a estética barroca sobressaíram.

Acervo MAP - PE

O estilo oficial da Igreja Católica tomou o Brasil, com seus anjos, excessos, contradições e religiosidade manifesta, o reflexo disto é visível nas religiões afro-brasileiras. Através da busca pela volumetria, as formas e a opulência do Barroco se mantiveram vivas até hoje em saias de vendedoras de acarajé e em trajes de orixás.

Em Cachoeira, segunda maior economia da província da Bahia, em 1846, um marco surge desta fusão. Através da Igreja de Nossa Senhora do Sagrado Coração do Monte Formoso, erguida pelo esforço de mulheres negras ex-escravas, uma igreja barroca foi erguida, e esta se tornou abrigo para cultos da já existente Ordem da Boa Morte e sua tradição afro-católica.

Acervo MAP - PE

A Ordem da Boa Morte e a Igreja de Nossa Senhora até hoje existem, suas influências se espalharam pelo Brasil, o estilo de seu candomblé se proliferou e manteve viva a religião africana e a estética européia.

Foi entre anjos e orixás, entre o barroco católico tardio e o candomblé afro-brasileiro, que Boaventura da Silva Filho, o Louco, nasceu, viveu e morreu, dando vida a obras que fundiam estilos, culturas e continentes, em uma estética particular e rica.

Acervo MAP - PE

Louco dá rostos e máscaras africanas para o catolicismo, enquanto trabalha a religião e o profano em uma mesma obra, tão barroco. Os cabelos escamados de Boaventura remetem imediatamente às asas de querubins barrocos, enquanto os rostos longos de olhos rasgados ressoam a cultura Ioruba, quase em uma Gueledé de santos e pecadores.

Fontes:

MAP – Museu de Arte Popular

Depoimentos de Louco – Cachoeira – Bahia – 1976: Publicação: “\”Reinado da Lua\”” – EScultores Populares do Nordeste  – Silvia Rodrigues Coimbra – Flávia Martins – Maria Letícia Duarte

Período da Mostra

18 de Junho a 30 de Julho

Acervo MAP - PE

“É porque eu sou louco pra trabalhar! Fui o primeiro artista da cidade. Trabalho com inspiração e amor. Às vezes me afasto de tudo – vou pro mato, fico lá sozinho, sem zuada, só com meu radinho e os troncos de madeira, despreocupado, longe da mulher, dos 10 filhos, dos fregueses. Eles conversam muito e atrapalham. E a mulherquer muita coisa. Mulher é como criança, nada chega.”

Curadoria e Acervo – Museu de Arte Popular  

Marcela CS Wanderley (Museu de Arte Popular)

Fábio Freire Maciel de Carvalho (Co-curador)

Galeria do SESC Casa Amarela – Recife – Pe

segunda a sexta-feira, das 9h às 21h

Av. professor Jose dos Anjos, 1190 – Recife

Tel. 81 3267-4410

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3 Respostas para “A loucura esculpida na madeira

  1. Fantástico seu trabalho!
    OBrigado pela preferência das obras do meu pai Louco.
    Tenho um blog , loucoescultor.blogspot.com, visite !!!
    Carlos Gama – filho do louco

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