Fotopintura, a memória “tatuada” na parede

Hoje o Celophane Cultural vai tratar de uma arte, quase esquecida pelo tempo, que se não fosse o empenho e perseverança de um Cearense, mestre do ofício, ela hoje não existiria mais: a Fotopintura

São Paulo, Fevereiro de 2011 um workshop sobre as técnicas da Fotopintura e uma parceria entre a Galeria Choque Cultural com o Mestre e ainda o lançamento do livro: “Júlio Santos – Mestre da Fotopintura” celebram mais um paço na preservação desta arte que “tatua” a imagem e a memória das pessoas nas paredes de uma casa.

São Paulo, 05 de Abril a 28 de Maio a Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”.
O Ofício da Fotopintura

Ofício muito comum no começo do século XX, tempo em que a fotografia ainda engatinhava e precisava da ajuda de um colorista-pintor que para complementar a imagem preto e branca. Até o final dos anos 1950, era muito comum ver os álbuns de foto da família com retratos pintados à mão ou a família e entes queridos “tatuados’ e emoldurados nas paredes da casa. As câmeras coloridas vieram, com tamanhos menores e valores acessíveis fazendo com que a fotopintura caísse em decadência.

Fotopintura de Mestre Julio - divulgação

No Nordeste, essa tradição continuou por vários motivos, principalmente pela dificuldade de acesso aos novos produtos fotográficos e novidades tecnológicas. Uma outra forma de eternizar um ente querido, já falecido, onde apenas uma foto “carcomida” pelo tempo era a única lembrança, seria a reprodução em fotopintura, preservando a beleza guardada na memória e muitas vezes, a pedido do cliente, consertando alguns defeitinhos que por ventura a foto apresentasse.

O Mestre Julio

No Ceará, o Mestre Júlio, fotopintor de primeira, criou boa fama entre os que precisavam de um retoque de estilo nos retratos e manteve seu negócio até a virada do milênio.

Fotopintura do Fotografo e amigo Tiago Santana e sua esposa feita por Mestre Julio - a foto faz parte do Livro

Mestre Júlio Santos, fotopintor de retratos, atua há mais de 40 anos em Fortaleza (CE). Foi formado no estúdio do seu pai, o Pai Didi, pelo artista plástico Medeiros –contemporâneo de Estrigas, Aldemir Martins e Mário Barata, todos da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), onde Júlio Santos trabalhou desde os 12 anos. Atualmente, em seu próprio estúdio, o Áureo Studio, atende a todos os pedidos de retrato, restauro e “transformação” do Ceará e outras capitais de norte a sul do país.

Com o advento da fotografia digital, poderia se pensar que o oficio da fotopintura acabaria de vez e ficaria na memória dos saudosistas. Apesar das dificuldades, Mestre Júlio não desistiu e, com a ajuda da filha, resolveu “virar a mesa” trazendo finalmente a tecnologia digital para transformar o negócio da fotopintura. “Mantive as características estéticas da fotografia colorizada, mas hoje uso o Photoshop, scanners e outros programas e equipamentos de captação e tratamento de imagem disponíveis, detalha Mestre Júlio.


Mestre Júlio acredita na transformação pelo trabalho artístico do fotopintor e investe na construção da memória e recuperação da história do cliente que encomenda um restauro ou um retrato. Ao mesmo tempo, já teve seu trabalho registrado em diversos documentários produzidos pela historiadora e diretora do Memorial da Cultura Cearense, Valéria Laena, pelo fotógrafo Tiago Santana e pelo cineasta Joe Pimentel. Participou dos Encontros de Fotografia Popular, no Memorial da Cultura Cearense, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e do Encontro DeVERcidade, em Fortaleza. Participou também da mostra Retratos Populares, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, em 2006, ao lado de Telma Saraiva, outra artista do Crato (CE).

Desde 2009 trabalha com o fotógrafo Luiz Santos, de Recife, no projeto Fotopintura Contemporânea, na Tamarineira, nome popular do Hospital Psiquiátrico Ulisses Pernambucano, que fica no bairro homônimo.

O LIvro

“Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Capa do Livro - “Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Este livro foi selecionado pelo Edital Conexão Artes Visuais MinC/ Funarte/ Petrobrás e pelo Edital de Incentivo á Fotografia da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor, e foi publicado pela Editora Tempo d’Imagem.

A obra traz texto de apresentação da curadora Rosely Nakagawa e entrevista inédita com Mestre Júlio Santos, realizada por Isabel Santana Terron, Rosely Nakagawa e Tiago Santana, no Áureo Studio, em Fortaleza. Nessa entrevista, Mestre Júlio fala sobre sua carreira desde os primeiros retratos, feitos com recursos de pintura sobre papel de sais de prata, até os retratos feitos hoje com recursos digitais, quando teve que aprender a utilizar o Photoshop.

Foto: divulgação

Imagem do Livro: Divulgação

 

O livro foi produzido por várias mãos, como por exemplo: Rosely Nakagawa, Isabel Santana e Tiago Santana. Com divisão eficiente sobre o tema e bem ilustrado a partir do acervo de Júlio Santos, seguindo o modelo do antes e depois, podemos “entrar” no universo da fotopintura de forma objetiva e clara. Os textos de Rosely nos introduzem ao tema da fotopintura e ao Mestre Júlio.

O didatismo da obra se revela na entrevista com Mestre Júlio e com os últimos capítulos que são dedicados a uma espécie de glossário das técnicas do Estúdio Áureo, assim como de nomes que fazem parte do contexto da fotopintura no Ceará. Outro ponto didático é a apresentação da substituição da técnica artesanal da fotopintura pela ferramenta Photoshop. O livro mostra o passo a passo deste processo na transformação de um retrato em fotopintura.

Livros como esses são significativos, pois tratam de temas caros à difusão de conhecimento sobre história das técnicas fotográficas, da dinâmica do comércio da fotografia popular, do estilo autoral do profissional em questão, do valor simbólico existente entre pedir que a foto renasça de uma outra forma ou mesmo de preservar o que o tempo apagou de um retrato.

O livro acompanha um DVD com oum trecho do documentário “Câmera Viajante” com o título de “Retrato Pintado” de Joe Pimentel.

 

Faça a sua fotopintura em São Paulo

A Galeria Choque Cultural está atenta as iniciativas instigantes, como a de Mestre Júlio que foi convidado para um  workshop, marcando inicio da parceria entre a Choque e o estúdio do artista. “A partir desse dia, vamos oferecer o serviço de retratos fotopintados ao público da galeria. Basta trazer a sua foto 3×4 para receber de volta seu retrato estilizado pelo Mestre”, nos informa Ribeiro sócio da Choque. O preço inicial de uma fotopintura é de R$ 200,00.

Quem estiver no Ceará pode visitar o  Áureo Estúdio

encomendar sua foto e conhecer o simpático mestre:

R. Gonçalves Ledo, 1779 – Fortaleza (CE)

Mas a fotopintura não se restrige a Nordeste, no Rio – Baixada Fluminense a fotopintora D. Diana fez trabalhos com muita delicadeza e simplicidade, ela coloria as fotos do marido fotógrafo sem a intenção de se tornar uma profissional na área.

Auto retrato de D. Diana

A Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”, com Curadoria de Eder Chiodetto.

A exposição composta por 200 retratos pintados a partir de fotografias – técnica hoje praticamente extinta – que revelam o universo estético do sertanejo nordestino. Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra apresenta parte da coleção do sociólogo Titus Reidl, que reúne cerca de 5 mil imagens adquiridas, em sua maioria, em Juazeiro do Norte (CE) e região.

O recorte curatorial privilegiou o embate entre fotografia e pintura. Segundo o curador, enquanto numa parte das imagens o aspecto fotográfico se mostra visível, em outras a fotografia é completamente ocultada, com os traços fisionômicos chegando ao limite da caricatura. “A soma das imagens, no entanto, tem a capacidade de revelar, além das feições, os sonhos de projeção, de afetividade, de memória, bem como os valores sociais do povo nordestino”, completa Chiodetto.

Local: Galeria Estação
Rua Ferreira de Araújo, 625
Pinheiros – São Paulo

Convite da EXposição

Fotopintura do acervo de Titus Reidl

Fontes:

Galeria Choque Cultural:

Assessoria de imprensa:  Agência Cartaz

Blog Vila MUndo

Leandro Matulja e Sandra Calvi

Blog Olhave – Alexandre Belem

Fotos e BLog: Georgia Quintas

Workshop na Choque Cultural SP - Foto: Georgia Quintas

“Sigo o historiador Geoffrey Batchen que nos aconselha a olharmos mais para as nossas próprias fotografias e as dos anônimos. São nelas – nas imagens privadas – e nesses fotógrafos espalhados pelo Brasil e no mundo que vamos nos encontrar. Júlio Santos, como ele mesmo fala, acredita que o maior valor da fotopintura é “tatuar” as pessoas nas paredes de uma casa. Júlio Santos e Geoffrey Batchen fazem todo sentido.”

… A fotopintura de Júlio é um procedimento coletivo. A autoria? Quando se coloca o espírito e a alma naquele retrato, já é do mundo, de quem vê, não é mais do fotógrafo. Simples assim. “O retrato é encantador mesmo, não me sinto dono dele”.

Georgia Quintas.


Até a próxima edição do Celophane CUltural

Anúncios

Uma resposta para “Fotopintura, a memória “tatuada” na parede

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s