O Profeta da “Gentileza”

O Celophane Cultural conta a história de um profeta urbano, ele nos encantou antes de sua morte com seus ensinamentos suas andanças pelo centro do Rio dando flores e suas profecias eternizadas nas pilastras do cemitério do Caju até  Rodoviária do Rio de Janeiro. Sua palavra nos faz pensar até hoje o quanto o simples ato de dar Gentileza… pode gerar Gentileza  principalmente nos tempos de tanta violência no nosso dia a dia.  Esta é a história de José Datrino ou como ficou eternizado O Profeta Gentileza.

Detalhe da Grafia criada pelo profeta gentileza, cheia de significados. fonte Museu Virtual Gentileza

Desde Criança fui atraído pelos seus murais pintados em verde e amarelo, quando passava de ônibus pela Rodoviária. Conheci mais profundamente sua história quando fui convidado pela Designer Vanessa Bittencout, para montar a Exposição: “A Arte Mural do profeta Gentileza” na UFRJ com produção de Ana Cunha.

Fotos da Exposição

“Quem é esse cavaleiro andante, em plena cidade contemporânea, a conduzir seu estandarte cheio de apliques, metendo-se pelos lugares, a levar sua palavra? De início, chega-nos sua estranheza, seu “deslocamento”, antes, até de sua gentileza. Vê-lo com sua bata branca pela rua é ter contato com uma figura que nos parece extemporânea. Não de um futuro, mas de uma voz que ecoa, bizarramente, um sagrado que não se mostra mais.”

“Brasil Tempo de Gentileza” – Leonardo Guelman

Imagem em close do profeta com sua "táboa Estandarte" com inscrições proféticas - fonte "Rio com Gentileza"

A Gentileza desde sua Infância

Nascido em 11 de abril de 1917, em Cafelândia, interior de São Paulo, com mais nove irmãos, José Datrino teve uma infância de muito trabalho, onde lidava diretamente com a terra e com os animais. Para ajudar a família, puxava carroça vendendo lenha nas proximidades. Desde cedo aprendeu a amar, respeitar e agradecer à natureza pela sua infinita bondade. O campo ensinou a José Datrino a amansar burros para o transporte de carga. Tempos depois, como profeta Gentileza, se dizia “amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”. Desde sua infância José Datrino era possuidor de um comportamento atípico. Por volta dos doze anos de idade, passou a ter premonições sobre sua missão na terra, onde acreditava que um dia, depois de constituir família, filhos e bens, deixaria tudo em prol de sua missão. Este comportamento causou preocupação em seus pais, que chegaram a suspeitar que o filho sofria de algum tipo de loucura, chegando a buscar ajuda em curandeiros espíritas.

A Vinda para o  Rio de Janeiro.

Aos vinte anos foi para o estado do Rio de Janeiro, enquanto sua família mudava-se para Mirandópolis, também cidade do interior de São Paulo. No Rio de Janeiro, casou com Emi Câmara com quem teve cinco filhos. Começou sua vida de empresário com um pequeno empreendimento na área de transportes, onde fazia fretes para o sustento da família. Aos poucos, o negócio foi crescendo até se tornar uma transportadora de cargas sediada no centro da cidade.

Surge um Profeta das cinzas

No dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niterói, quando tinha 44 anos, houve um grande incêndio no circo “Gran Circus Norte-Americano“, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo. Neste incêndio morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças.

Capa do Jornal do Brasil anunciando a tragédia - fonte arquivo JB

Na antevéspera do natal, seis dias após o acontecimento, José acordou alucinado ouvindo “vozes astrais“, segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói, local que um dia foi palco de tantas alegrias, mas também de muita tristeza. Aquela foi sua morada por quatro longos anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras “Agradecido” e “Gentileza”. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar “José Agradecido“, ou simplesmente “Profeta Gentileza”.

O nome de “Profeta Gentileza” foi ganho porque vivia pregando o amor, a paz e pedia  sempre “por gentileza”. Jamais dizia a palavra “Obrigado”, pois dizia que obrigado vinha de obrigação e preferia dizer “agradecido”.

Profeta exibindo sua táboa/estandarte com inscrições e todo enfeitado com Flores, ramos e cataventos. Foto acervo Claudio Rocha

Após deixar o local que foi denominado “Paraíso Gentileza”, o profeta Gentileza começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970 percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: – “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Os murais que eternizaram suas profecias.

A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju que vai do Cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio, numa extensão de aproximadamente 1,5km. Ele encheu as pilastras do viaduto com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização.

O Profeta sorridente sobre a escada pintando seus murais. Foto Acervo Claudio Rocha

Gentileza e seus murais promoveu uma das maiores intervenções urbanas de arte na cidade do Rio de Janeiro.

Durante a Eco-92, o Profeta Gentileza colocava-se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a Gentileza e a aplicarem Gentileza em toda a Terra.

TRanscrição dos Escritos de Gentileza

O profeta sempre com seus passos largos e determinados - Acervo Claudio Rocha

O profeta vai pro céu, encontrar Deus

Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu na cidade de seus familiares, onde se encontra enterrado, no “Cemitério Saudades”.

Com o decorrer dos anos, os murais foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e mais tarde cobertos com tinta de cor cinza. Com ajuda da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, foi organizado o projeto Rio com Gentileza, que teve como objetivo restaurar os murais das pilastras.

foto da restauração dos murais - fonte: Rio com Gentileza

Começaram a ser recuperadas em janeiro de 1999. Em maio de 2000, a restauração das inscrições foi concluída e o patrimônio urbano carioca foi preservado.

DEcreto da Prefeitura do Rio tornando os Murais patrimônio histórico da Humanidade.

 

O Universo do Gentileza vira livro

No final do ano 2000 foi publicado  o livro UNIVVVERRSSO GENTILEZA, do professor Leonardo Guelman. A obra introduz o leitor no “universo” do profeta Gentileza através de sua trajetória, da estilização de seus objetos, de sua caligrafia singular e de todos os 56 painéis criados por ele, além de trazer fatos relacionados ao projeto Rio com Gentileza e descrever as etapas do processo de restauração dos escritos. O livro é ricamente ilustrado com inúmeras fotografias, principalmente do profeta e de seus penduricalhos e painéis. Além de fotos do próprio profeta Gentileza trabalhando junto a algumas pilastras, existem imagens dos escritos antes, durante e após o processo de restauração.

Capa do Livro: UNIVVVERRSSO GENTILEZA Leonardo Guelman

Livro: UNIVVVERRSSO GENTILEZA – Leonardo Guelman
Ed. Mundo das Idéias

Fonte Museu virtual Gentileza

Fonte: Rio com Gentileza

Fonte: Blog Gentileza gera Gentileza

Video:

Gentileza – Documentário de Dado Amaral e Vinicius Reis

Diz assim a música Gentileza”, de Mariza Monte

que integra o CD Memórias, Crônicas e Declarações de Amor:

Foto do profeta com sua táboa estandarte - fonte: Rio com Gentileza

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta

Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
A vocês no mundo
Se é mais inteligente
O livrou ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o profeta.


 

 

 

 

 

Aprendemos sempre com estes sábios representantes populares que acreditam que a humanidade tem jeito e pode ser gentil pra receber “Gentileza” em troca. Que ele seja sempre lembrado nos momentos em que esquecemos de ser “humanos” e “gentis”.

Até o proximo Celophane Cultural

JeffCelophane | Jefferson Duarte

 

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3 Respostas para “O Profeta da “Gentileza”

  1. Que bom que entre uma correria e outra, posso ler esse blog. Saber um pouco mais sobre nossa cultura sempre é saber mais sobre nós mesmos, saber mais sobre nosso próprio país, abrir cada vez mais o coração pra tanta gente e tanta informação… Quando morava na cidade, estava sempre entre uma exposição e outra, mas agora, longe do centro e com a correria da vida isso é bem mais difícil e o blog tem me aproximado mais desse mundo bom de coisas boas e bonitas que fazem parte do Brasil.

  2. Querida Telma
    É muito bom ler um comentário como este que valoriza o meu esforço e dedicação em levar o que temos de melhor no nosso povo, a cultura, para um blog que com pouco tempo já tem uma média de 80 visitas diárias. Isso mostra que o caminho está certo e revigora cada vez mais o meu compromisso com ele.
    Agradeço a sua participação e espero cumprir e suprir o papel a que viemos.
    UM grande abraço cultural do JeffCelophane.

  3. Recebi via mail este comentário do amigo Museólogo
    Cláudio Lacerda – museolog2001@ig.com.br

    “Eu cansei de ver o “profeta!” andando no sinal da Av. Pres. Vargas, em frente a Central no inicio da década de noventa. Nessa época nuuuunca imaginei que, depois de morto, tornar-se-ia uma celebridade cult. Todos os transeuntes, incluindo eu, um jovem de 19, 20 anos, consideravam-no , mais um ” louco” da cidade, além de ser uma figura impossível de passar incólume…
    Os escritos dele nas pilastras dos viadutos foram recentemente restaurados, por que ACREDITEM, os evangélicos (sem comentários) picharam em cima, sugerindo que os escritos eram, obviamente, demoníacos…
    Aproveito para dizer a TODOS que o Rio está voltando aos poucos ao normal. Eu mesmo que, em momento algum mudei minha rotina, NADA vi de anormal, a não ser uma diminuída de pessoas e carros nas ruas, o que aliás, tornou o trãnsito muito mais suportável de encarar. O problema mesmo, caros leitores, está somente na área do Complexo do Alemão e na Penha. Fora isso, vida para frente.”

    Cláudio

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